
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
O Brasil relembra hoje os 62 anos do golpe que nos enfiou em uma ditadura de 21 anos, com toda a violência e corrupção do combo autoritário. Nos últimos dias, os dois pré-candidatos da direita à Presidência da República deram declarações que mostram que o espírito de 1964 segue vivo.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em discurso na CPAC, a conferência ultraconservadora nos Estados Unidos, disse que as eleições serão livres no Brasil se ele ganhar, repetindo o mantra que o pai inaugurou em 2018. “Se o nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e se os votos forem contados corretamente, nós vamos vencer”, disse ele.
O governador Ronaldo Caiado (PSD-GO) prometeu, como primeiro ano do seu governo, caso eleito, um perdão para tirar Jair Bolsonaro e generais da cadeia, onde amargam cana por tentarem transformar a democracia em geleia com uso de violência. “Meu primeiro ato será exatamente a anistia ampla, geral e irrestrita”, afirmou.
A impunidade dos artífices, comandantes e torturadores do golpe de 1964 ajudou a semear a tentativa de 2022/2023, que, inclusive, contou com a participação de militares de alta patente. O passado não resolvido sempre volta.
Não é que Bolsonaro perverteu pobres generais estrelados. Setores militares e civis estavam com ele, aceitando dobrar a democracia em busca de privilégios, dinheiro e poder. O ex-presidente não criou sozinho o espírito golpista. Ele sempre esteve aí, inclusive Jair Messias foi nele forjado. Seu (de)mérito foi dar à extrema direita organização e sentido através de sua eleição, fincando as bases de um golpe já em 2018.

Nunca curamos as feridas deixadas por 21 anos de ditadura. Tapamos com um curativo mal feito, ao qual chamamos de anistia, que garantiu impunidade a crimes cometidos pelo Estado. Essas feridas continuam fedendo, apesar dos esforços estéticos.
Sabe por que é importante relembrar os 62 anos de 1964? Porque ele continua vivo não apenas naqueles que insistem em dizer que eleições só valem se eles ganharem, mas também na tortura pelas mãos de policiais nas periferias, herdeiros dos métodos e técnicas desenvolvidos na repressão. E no uso do poder político para favorecer o poder econômico, atropelando trabalhadores no meio do caminho.
Como sempre digo aqui, temos lidado com o passado como se ele tivesse automaticamente feito as pazes com o presente. E o impacto de não entendermos, refletirmos, discutirmos e resolvermos o nosso passado se faz sentir no dia a dia, com parte do Estado aterrorizando e reprimindo parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica).
Que a história das mortes sob responsabilidade da ditadura de 1964 seja conhecida e contada nas escolas até entrar nos ossos e vísceras de nossas crianças, a fim de que nunca esqueçam que a liberdade da qual desfrutam não foi de mão beijada, mas custou o sangue, a carne e a saudade de muita gente. Que a tentativa de golpe de 2022/2023 não seja relativizada, o que inclui a devida punição, principalmente aos artífices e planejadores, que queriam ignorar o resultado que saiu das urnas, permanecendo no poder para impor sua vontade e lucrar com ela. Que militares fardados fiquem na caserna, deixando a política para civis, seguindo a proposta que tramita no Congresso Nacional e que essa interpretação manipuladora de poder moderador seja enterrada de vez.
Que o Brasil possa, finalmente, enterrar o ano de 1964. Porque a eleição de 2026 nos lembra que, sim, ele ainda está aqui.