
Por Leonardo Sakamoto, no UOL.
Por que é tão importante a Polícia Federal investigar quem são os beneficiários finais dos milhões enviados por Daniel Vorcaro aos Estados Unidos?
E o principal candidato da oposição à Presidência da República, senador Flávio Bolsonaro, terá sido responsável por garantir o financiamento dessa operação criminosa.
Já é grave que um senador tenha prometido lealdade a um banqueiro envolvido no maior escândalo financeiro da história do Brasil (“Irmão, estou e estarei contigo sempre”, disse ele, em novembro de 2025, quando o Master já era investigado pela PF), ao pedir dinheiro para um filme. “Dark Horse”, filme sobre a vida de Jair que conta com o ator Jim Caviezel no papel principal, será usado como propaganda eleitoral a partir de setembro.
O Intercept Brasil, que já havia divulgado mensagens em texto e áudio entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, também indicou que ao menos parte do dinheiro foi transferida para os EUA usando a Entre Investimentos e Participações, que atuava em parceria com empresas de Vorcaro, para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro.

O site publicou ontem nova reportagem com documentos e mensagens apontando que Eduardo Bolsonaro exerceu contratualmente o papel de produtor executivo no filme. O ex-deputado federal está autoexilado nos Estados Unidos e articulou sanções do governo Donald Trump ao Brasil, via tarifaço, para pressionar o STF no julgamento de seu pai por tentativa de golpe e o Congresso Nacional a aprovar uma anistia.
Nas redes sociais, o ex-deputado atacou a reportagem, negou que tenha sido beneficiado com o dinheiro e afirmou que explicou a origem de todos os seus recursos às autoridades dos EUA no processo de imigração.
O valor repassado por Vorcaro (R$ 61 milhões, dos R$ 134 milhões pedidos) é superior ao que custaram os dois filmes brasileiros de maior sucesso internacional nos últimos anos. “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, com Fernanda Torres, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional, custou R$ 45 milhões. E “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, com Wagner Moura, que levou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes, teve orçamento de R$ 28 milhões.
Caso a PF comprove que Eduardo Bolsonaro de fato usou recursos repassados por Vorcaro para a sua manutenção, o senador e o banqueiro também poderão ser indiciados e, posteriormente, denunciados por coação no curso do processo por tentar atrapalhar o julgamento da tentativa de golpe de Estado. Eduardo é réu no STF por causa disso e espera o julgamento que pode torná-lo inelegível.
Em suma, Vorcaro bancar o filme após os pedidos de Flávio Bolsonaro já seria, por si só, uma demonstração obscena da promiscuidade com dinheiro, política e propaganda eleitoral disfarçada. Mas, se a investigação confirmar que os milhões enviados aos Estados Unidos serviram também para sustentar a ofensiva de Eduardo Bolsonaro contra o próprio país, o caso entra em outro patamar: o de uma operação financiada para atacar instituições brasileiras, empregos brasileiros e a soberania nacional. Ou seja, traição financiada, crime de lesa-pátria.