Sakamoto: Chefe do TST acerta ao cortar grana de quem lucra com conflito de interesse

Atualizado em 6 de maio de 2026 às 10:15
O presidente do TST, ministro Vieira de Mello Filho, em sessão da corte. Foto: Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Vamos combinar uma coisa antes de começar: se um ministro do Supremo Tribunal Federal desse palestras pagas para advogados ensinando como ganhar causas no STF, o Brasil inteiro estaria em chamas. Teríamos CPI, pedido de impeachment, capa de revista e trending topic por uma semana. Agora, quando isso acontece no Tribunal Superior do Trabalho (e com mais de um ministro), a história vira meme sobre “juízes vermelhos e azuis” e o cara que trouxe o caso à tona é tratado como vilão. Parabéns, Brasil!

Vamos aos fatos, porque aparentemente eles incomodam.

O ministro Ives Gandra Martins Filho deu palestra em um curso, frequentado por advogados, cujo objetivo era ensinar como atuar no Tribunal Superior do Trabalho. Nesse curso, coordenado pelo vice-presidente do TST, Guilherme Caputo Bastos, ou seja, parte da administração da corte, Ives usou slides em que classificou os ministros entre “azuis” e “vermelhos”. Azuis seriam o que chama de “legalistas”, os liberais, o bem, no qual ele se colocou. Vermelhos, os “ativistas”, os intervencionistas, o mal. O próprio Ives posteriormente admitiu que fez essa divisão.

A diferenciação é bizarra. Os slides e a história do curso logo circularam entre a magistratura. O presidente do TST, Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, num congresso de magistrados, como resposta a isso, apontou o absurdo que era aquela simplificação divisiva em um momento em que o importante seria proteger a instituição, a Justiça do Trabalho, que vem sendo alvo de ataques.

Aí a internet explodiu, políticos foram às armas e analistas, aos microfones — todos mirando nele, que expôs o problema, enquanto os problemas em si ficavam confortavelmente fora do enquadramento. Afirmaram, indevidamente, que a divisão por cores foi criada por ele.

Por isso, deixe voltar ao ponto central. Ministros de uma corte superior estavam dando palestras pagas sobre a corte. Advogados pagaram valores que não são baixos. Com isso, compraram acesso a um conhecimento privilegiado sobre a cabeça de quem vai julgar os processos dos seus clientes. A maioria da advocacia brasileira (aquela que não tem grana para pagar esse tipo de curso) ficou do lado de fora olhando pela janela.

Isso tem nome. Chama-se conflito de interesse. Em qualquer tribunal minimamente sério no mundo, seria investigado.

Vieira de Mello diz que tentou resolver o problema internamente, pediu para que parassem, levou um “mas eu não sabia que havia conflito” como resposta e aí decidiu expor publicamente. Agora, segundo revelou o jornal O Estado de S.Paulo, vai cortar o subsídio de quem faltar às sessões de julgamento sem justificativa adequada. É uma medida administrativa básica: você tem obrigação de estar lá julgando. Se não estiver lá porque está faturando em outro lugar, o salário é descontado.

Manchete do Estadão. Foto: Reprodução

As redes passaram a semana falando em “juízes vermelhos e azuis”, transformando o caso num campo de batalha entre direita e esquerda trabalhista, ignorando olimpicamente que a divisão foi inaugurada por um ministro conservador dando aula para advogados que pagaram para ouvir ele criticando os demais colegas.

A impressão é que, no Brasil, a indignação por conflito de interesses só vale se os envolvidos forem ligados a trabalhadores. Se forem conectados a empresas, aí não, é só business as usual.

Políticos de vários matizes aproveitaram o vídeo de Vieira de Mello no congresso para atacá-lo, sem mencionar uma palavra sobre o contexto que gerou a fala. Oportunismo puro. E tiveram espaço. Quando você enquadra só a reação e apaga a causa, você pode contar qualquer história que quiser. O jornalismo que se preza não funciona assim. Ou não deveria.

O presidente do TST está certo em dizer que ministro não pode ganhar dinheiro ensinando advogados a litigar no próprio tribunal onde ele vai julgar esses advogados e em cortar o subsídio de quem fura sessão de julgamento para fazer palestra paga sem justificativa. Ele trouxe a questão à luz sabendo que ia apanhar. Apanhou mesmo, principalmente de quem preferia que o esquema continuasse nas sombras.

Mas, vamos deixar a inocência de lado: ele apanhou também porque vem defendendo pautas como o fim da escala 6×1, a regulamentação do trabalho por aplicativos e a proteção da Justiça do Trabalho pelo naco do Brasil que tenta atropelar a CLT. E há muita gente crescida no leite de pera que sonha com o dia em que proteções e direitos trabalhistas sejam coisa de museu.

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