
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Ao menos 19 pessoas morreram no Estado de São Paulo, desde dezembro, na atual temporada de chuvas, diante da falta de políticas públicas. E, na noite de ontem, pelo menos 14 morreram em desmoronamentos em Juiz de Fora diante da falta de políticas públicas em Minas Gerais. A letalidade da chuva e da lama vem sendo multiplicada pela incapacidade, incompetência ou má-fé de sucessivas gestões em municípios, estados e da União. O clima mudou, mas a ação dos governantes não o acompanhou. E isso mata.
“Ah, mas choveu mais do que a média, japonês.” Não, pequeno gafanhoto, a média pluviométrica histórica já foi pro espaço com o aquecimento global. Da mesma forma, eventos climáticos extremos, que se repetiriam ao longo de décadas, ocorrem no intervalo de anos, sem que municípios, estados e a União estejam prontos para enfrentar essa realidade.
Avisos de que isso aconteceria vêm sendo dados desde a Rio 92. Mas para que ouvir cientistas se a verdade está no WhatsApp? Todos os governantes desde então têm sua parcela de responsabilidade.
Alguns mais do que outros porque parecem fazer de propósito. Após o Congresso Nacional aprovar, no ano passado, a Mãe de Todas as Boiadas, o pacote de medidas para enfraquecer o licenciamento ambiental, espera-se uma piora nos impactos dos eventos climáticos extremos. Uma coisa é simplificar regras, a outra é derrubar os controles que impedem que isso vire a antessala do inferno.
E, mesmo com eventos frequentes, nossa memória seca rápido. Há apenas três anos, em fevereiro de 2023, São Paulo estava velando os corpos de 64 mortos na Vila Sahy, em São Sebastião. Ela nasceu como uma ocupação formada por migrantes nordestinos que vieram tentar a sorte no litoral paulista. As casas simples abrigam trabalhadores que prestam serviços para as residências e os negócios de alto padrão na região. Originalmente, as famílias humildes é que moravam na praia, onde agora ficam os condomínios, pousadas e hotéis. Mas foram sendo empurradas pela especulação imobiliária para as encostas de morros, em um processo que também mata nas periferias da Grande São Paulo, de Santa Catarina, do Rio de Janeiro, da Bahia, de Minas Gerais.
Sim, a tragédia climática fica muito pior com a pornográfica desigualdade social. O deslizamento de terra que mata não acontece nos Jardins e na orla do Leblon.
Até há estados e cidades que desenvolveram seus planos e políticas de adaptação, contudo ações efetivas pouco saíram do papel. E, portanto, vamos conviver com a dor de perdas humanas e prejuízos econômicos até que líderes políticos e econômicos se deem conta disso.
Retirar a população de um local, com antecedência, e recolocá-la em outro, de forma decente e digna; melhorar uma comunidade para evitar inundações e deslizamentos; implementar políticas de moradia que construam casas em locais fora de risco; e atualizar o levantamento de áreas de risco e o desenvolvimento de protocolos de retirada são ações conhecidas que deveriam ser providenciadas pelos poderes municipal, estadual e federal.
DESTRUIÇÃO | Vídeos que circulam nas redes sociais mostram a dimensão da destruição provocada pelo temporal que atingiu Juiz de Fora na noite desta segunda-feira (23/2). As imagens registram o transbordamento do Rio Paraibuna, com a força da água invadindo casas, arrastando… pic.twitter.com/7O3CoDpG4G
— 98 News Oficial (@98newsoficial) February 24, 2026
Cidades na Europa já constroem diques acima do necessário para absorver o impacto futuro da subida do mar; por aqui, nem alertamos com antecedência todas as comunidades em risco. Ou vocês acham normal enviar um salve pelo celular do tipo “procure abrigo” apenas minutos antes de a chuva cair? Isso é uma vergonha.
O Brasil está alternando tragédias envolvendo chuva e fogo. Após o Rio Grande do Sul ficar abaixo d’água, no início de 2024, uma nuvem de fumaça cobriu dez estados, vinda de incêndios criminosos na Amazônia, no Pantanal e no Cerrado. Mesmo assim, o tema da mudança climática ocupa menos espaço nas campanhas eleitorais do que debates sobre a Venezuela.
Uma parcela estúpida, mas barulhenta, da sociedade defende com unhas e dentes que não existe aquecimento global e, consequentemente, alteração do clima. Pesquisa Datafolha de 2025 aponta que a parcela de brasileiros que afirma que as mudanças climáticas não são um risco cresceu de 5% para 9% em um ano. Ainda são poucos, mas sabemos que a estupidez viraliza rápido.
Políticos costumam agir somente diante dos estragos causados por desastres, como se tratassem de forma paliativa um paciente desenganado. Colocam capacete e bota para visitar os locais, fazem sobrevoos de helicóptero com beicinho de preocupação. Dessa forma, mortes por inundações, nos deslizamentos de terra ou ainda na sede e no desespero de comunidades afetadas pela seca e o fogo foram se tornando parte do calendário anual do Brasil, como o carnaval ou o réveillon.
Muitos até aproveitam para encarnar a imagem de heróis nas desgraças, ignorando que foram vilões da falta de ação no resto do tempo.
Quem deseja alcançar ou manter o poder deveria ser cobrado a dizer o que planeja para evitar desastres — que, por serem mitigáveis, são naturais apenas na condescendência midiática. Hoje, esse tipo de rubrica é uma das primeiras a perder recursos no orçamento quando é necessário atender a necessidades de aliados.
Mas parte dos candidatos não faz ideia do que dizer sobre mudanças climáticas. Evitam falar de medidas que podem soar impopulares com seus públicos — como remover famílias de áreas de risco e dizer não ao comportamento predatório de setores da agricultura, do extrativismo vegetal, da indústria petrolífera, do setor imobiliário, que trabalham sob a lógica do “o clima mudou, mas ainda dá tempo”.
Isso precisa ser tema central de toda eleição porque diz respeito à nossa sobrevivência. Infelizmente, para uma parcela significativa do eleitorado, é irrelevante o fato de que, hoje, centenas de pessoas morrem anualmente, soterradas, afogadas ou queimadas. Também não faz diferença se, amanhã, elas podem ser milhares — inclusive elas mesmas.
A realidade que queima, inunda e mata? Dane-se. Como já disse aqui, o povo quer se entreter com vídeo curto. A realidade só vai se impor quando faltar energia para carregar o celular.