Sakamoto: Clã do Banco Master pode virar herói de um Brasil que bajula sonegador

Atualizado em 19 de janeiro de 2026 às 18:58
Fachada do Banco Master. Foto: Maria Isabel Oliveira/O Globo

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Para uma parcela da sociedade, quem consegue passar a perna no fisco é vendido como exemplo a ser seguido, pois venceu o “Estado” quando, na verdade, sonegar milhões causa mais dano ao tecido social do que alguém que roubou bife porque a família estava com fome. Um “herói” que passa a perna nos demais empresários que cumprem regras e leis e que nega recursos que seriam usados para construir creches, comprar remédios e pagar policiais.

Mas cada povo tem os heróis que merece.

Natália Vorcaro Zettel e Henrique Moura Vorcaro, irmã e pai de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, alvos da Polícia Federal na operação que apura os crimes da instituição, acumulam mais de R$ 8 milhões em dívidas de PIS, Cofins e Imposto de Renda de Pessoa Jurídica em empresas da família. A informação foi divulgada hoje por Juliana Arreguy, no Painel da Folha de S.Paulo.

As dívidas estão com exigibilidade suspensa, o que permite a eles atuarem como se eles estivessem quites com a União. Mas existem. O fato de chamar uma rosa por outro nome não impede que ela exale o aroma (usei rosa pelo respeito à manhã dos leitores, mas usem a criatividade na analogia).

A questão não é como ter sucesso se deve uma montanha para o fisco, mas que tem gente que tem sucesso porque deve uma montanha para o fisco.

Quem deixa de pagar centenas ou milhares, é caloteiro. Quem deve milhões ou bilhões, é um exemplo a ser seguido. Mas se faz parte de um esquema de pirâmide para vender CDBs mortos-vivos para mais de um milhão de pessoas e empresas e de uma organização criminosa que criou dinheiro a partir de uma rede de fundos podres (que tinha até o PCC como cliente), sangrando os cofres de bancos públicos e a aposentadoria de servidores, você é parte de uma casta recebida em palácios e incensada por influencers.

Meu caro, minha cara, você, que está lendo este texto, não entende isso porque, provavelmente, é alguém da classe média que não tem o “máindisseti” correto.

Lembrando que o marido da Natália Vorcaro Zettel é o empresário Fabiano Zettel, que ficou preso por algumas horas quando tentava embarcar para Dubai, como parte da segunda fase da operação da Polícia Federal contra as falcatruas do Master. Ele é apontado como suposto parceiro de negócios e testa de ferro de Vorcaro, além de terem o mesmo gosto por viajar para os Emirados Árabes durante operações da PF.

Em alguns círculos empreendedores, ele é conhecido por ser sócio de marcas como Oakberry e Desinchá. Em outros, religiosos, por ser pastor da Igreja Lagoinha. Na política, foi o maior doador individual da campanha de Bolsonaro à reeleição, em 2022, com R$ 3 milhões. E doou outros R$ 2 milhões à de Tarcisio de Freitas ao governo de São Paulo. Com tanto dinheiro de sobra para doar para político, como é que a família não paga seus impostos?

O pastor Fabiano Zettel. Foto: reprodução

Não se tem notícia, porém, de que pessoas e empresas que evitam que milhões sejam investidos em educação, saúde e segurança pública precisem se preocupar com quem grita “bandido bom é bandido morto”. Pelo contrário, o que se vê são eles sendo defendidos. Sabe aquela história do “tá com dó, leva para casa?” Tem muito Guerreiro do Capital Alheio que se ofereceu para fazer um cafuné no dono da Ultrafarma quando o escândalo de sonegação bateu aqui em São Paulo.

Como falta amor no mundo, mas também falta interpretação de texto, esta coluna não está defendendo que ricos sejam executados com tiros nas costas nas calçadas como quem rouba sabão líquido nem unidade do Oxxo. Mas que a Justiça, seja ela social ou tributária, alcance a todos. Desejo cuja hipótese de se concretizar, como aqui já disse, é semelhante ao tal camelo passar pelo buraco da tal agulha.

Não se trata de inveja nem de moralismo de botequim. Trata-se de escolher que país queremos ser. Um em que o crime de colarinho branco é tratado como esperteza, pecado venial de quem “venceu na vida”, enquanto a miséria segue criminalizada a bala, algema e manchete. Ou um em que a lei não muda de tom conforme o tamanho do CPF, do CNPJ ou da conta bancária.

Enquanto a régua seguir torta, continuaremos a chamar de mérito o que é privilégio, de sucesso o que é pilhagem, de fé o que é conveniência. E seguiremos aplaudindo falsos heróis, até o dia em que a conta — como sempre — cairá no colo de quem nunca foi convidado para o camarote.