
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Em mais um capítulo do Game of Thrones do clã Bolsonaro, a prisão domiciliar temporária de Jair deu à ex-primeira-dama e diretora do PL Mulher, Michelle, acesso 24 horas por dia ao ouvido do marido. Coisa que seu enteado, o senador Flávio, terá por 30 minutos diários, como um dos advogados do pai, e um pouco mais do que isso como filho, nas visitas às quartas e aos sábados.
Com isso, ela será a pessoa da política com mais tempo para influenciar a cabeça do ex-presidente — não apenas quanto aos rumos da eleição, seus candidatos e alianças, mas também o futuro do próprio bolsonarismo. Vale lembrar que o nome do vice ou da vice na chapa presidencial ainda está em aberto.
Michelle trava uma guerra com os enteados pelo controle e pelo legado do bolsonarismo. Após estremecer o acordo entre o PL e Ciro Gomes no Ceará, sofreu uma derrota quando o marido ungiu seu primogênito como pré-candidato ao Palácio do Planalto. Ela sonhava com a possibilidade de encabeçar a chapa ou ser vice de Tarcísio de Freitas. Ainda sonha.
No lance anterior das guerras intestinas do clã, no início deste mês, Michelle havia conseguido que o marido a defendesse publicamente de críticas vindas inclusive do próprio filho, o ex-deputado federal Eduardo, de que ela não estaria se empenhando na campanha do irmão.
Bolsonaro deixou claro, na carta, que se faz necessário mais “diálogo e convencimento” com aqueles que ficaram insatisfeitos com a decisão de escolher Flávio como sucessor do patriarca. O que pode passar por incorporar o discurso de uma ala mais fundamentalista do bolsonarismo, representada por Michelle e pelo deputado federal Nikolas Ferreira, ou mesmo por negar determinados arranjos mais pragmáticos nos estados.
Em Santa Catarina, esse tipo de movimentação já surtiu efeito. Bolsonaro ungiu seu filho Carlos e a deputada Caroline de Toni ao Senado, abandonando o senador Espiridião Amin — que, aliás, é um dos principais defensores da anistia a Jair.
A carta não trouxe paz ao clã, claro. No máximo, adiou a próxima batalha. Porque, no bolsonarismo, como em toda monarquia hereditária, o problema nunca foi apenas externo. É, sobretudo, doméstico.

A ex-primeira-dama, com uma visita ao ministro Alexandre de Moraes logo antes de a decisão sobre a prisão domiciliar ser tomada, passou ao eleitorado de extrema direita a imagem de que foi ela quem conseguiu o benefício para o líder supremo. O que irritou muita gente, uma vez que Flávio também se reuniu anteriormente com Moraes e outros advogados para tratar da pauta.
Há uma hierarquia política dentro do clã. O autoexilado Eduardo, que se apresenta como o cavaleiro ideológico da família, percebe que sua influência depende menos do que gostaria de sua retórica inflamada. Carlos, operador das sombras digitais, faz críticas cifradas ao campo da direita. Flávio, o ungido, tenta se vender como moderado enquanto acumula apoios estratégicos, torcendo para que a terceira via (sic) lhe sirva como linha auxiliar de ataque a Lula. E Michelle se consolida como força política própria, com base evangélica e apelo popular.
Como já disse aqui um rosário de vezes, a disputa já não é apenas sobre 2026 ou o Senado. É sobre quem controla o legado, quem define o tom do movimento e quem herda o capital simbólico do “mito”. A guerra do clã não se trava apenas contra adversários externos, mas na delicada engenharia de poder entre sangue, casamento e conveniência.
Michelle, ao garantir acesso pleno ao ouvido do marido, conquista uma batalha importante nessa guerra.
Enquanto o patriarca segue como um rei em processo de sucessão, cercado por conselheiros interesseiros e pretendentes ao trono, cada sussurro ao seu ouvido pode valer mais que um comício, um mandato ou um milhão de votos.
É nesse palácio improvisado — feito de ressentimentos, vaidades e cálculos eleitorais — que o bolsonarismo decide seu futuro. Não contra Lula, o STF ou a esquerda, mas entre si. Porque, como em toda monarquia decadente, o inimigo mais perigoso raramente está fora do castelo. Quase sempre está na mesa do jantar.