
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Uma forte contraofensiva de parte do setor empresarial ajudou a pautar a imprensa após o fim da escala de trabalho 6×1 ganhar tração no Congresso Nacional em meio ao ano eleitoral. A cobertura do tema, que vinha sendo principalmente em torno de “questões de saúde e direitos” e “política no governo e no Congresso”, passou para “risco macroeconômico”, como resultado da amplificação da tentativa de contenção de parte do setor econômico.
Ao perceber que a batalha sobre a 6×1 seria perdida caso fosse combatida nas redes sociais e no Congresso, os críticos à redução da jornada de 44 para 40 ou 36 horas semanais e ao aumento de um para dois dias de descanso remunerado tentam mudar o palco da guerra para a imprensa.
Com o auxílio de plataformas de inteligência artificial, produzi um levantamento sobre a cobertura dos principais veículos de comunicação nos últimos três anos a respeito do tema. Não vou fulanizar porque esse não é o objetivo, que é tentar entender a dinâmica da mudança da narrativa.
O que apontou a análise profunda das IAs diante do meu longo prompt? De 2023 até agora, a cobertura da imprensa passou por duas fases distintas. Na primeira (2023-2025), havia o foco no trabalhador e na política. Quando o Movimento Vida Além do Trabalho, liderado pelo hoje vereador Rick Azevedo (PSOL-RJ), viralizou, a mídia cobriu o tema principalmente sob a ótica da saúde mental, exaustão e qualidade de vida. A discussão ganhou corpo nacional e foi impulsionada nas redes sociais pela deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), que propôs uma PEC para reduzir a escala.

Na segunda, principalmente de janeiro de 2026 até agora, o foco na cobertura passou a ser o risco econômico trazido pela medida. Com o avanço do debate no Poder Legislativo e o apoio do governo Lula à questão, associações patronais entraram de vez em cena. A imprensa tradicional passou a discutir temas como custo, inflação e desemprego, abrindo manchetes para relatórios de federações industriais e comerciais e pesquisas que relativizavam os efeitos positivos da mudança.
Especificamente no último mês, as plataformas de IA confirmaram um desequilíbrio robusto entre o espaço concedido ao posicionamento de entidades de classe e think tanks econômicos e aquele dedicado aos benefícios do fim da escala 6×1 para os trabalhadores e a economia. Esses pontos passaram a ser tratados mais em espaços voltados à opinião e análise, na maioria dos veículos tradicionais, e nos veículos da mídia não-corporativa.
Ressalte-se que esta avaliação não abrange os editoriais (espaços das opiniões dos veículos de comunicação e das empresas que os controlam), mas da cobertura noticiosa em si.
Estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), por exemplo, defendendo que o fim da escala geraria um aumento de até R$ 267,2 bilhões por ano nos custos das empresas, teve repercussão na imprensa celebrada pela própria entidade. A Confederação Nacional do Transporte (CNT) emitiu posicionamentos, amplamente reverberados, focando no risco de “apagão” de mão de obra (motoristas e mecânicos) e no risco de desabastecimento, também com boa tração.
No trabalho jornalístico, dados de entidades de classe de peso não raro rendem manchetes imediatas. O setor empresarial entendeu que a batalha estaria perdida para os trabalhadores se o palco fosse a questão da saúde, então transferiu a guerra para o campo da “racionalidade econômica”. Isso substituiu o debate sobre dignidade humana pelo das planilhas de custo.
Essa situação não é nova. Também esteve presente nos debates da Reforma Trabalhista e da Reforma da Previdência.
Apesar da enxurrada de pautas pró-empresa, ainda há fissuras na narrativa. Há lideranças empresariais, pesquisadores, representantes do governo federal e entidades da sociedade civil que vêm tentando contrapor. Contudo, essas vozes têm recebido menos destaque do que as projeções bilionárias de prejuízo.
A discussão da mudança da escala 6×1 é fundamental e precisa ser feita de forma séria. Trará, sim, impactos a parte das empresas, principalmente as de pequeno porte, e por isso apoio a esses grupos precisa ser construído. Mas também pode ajudar a melhorar a vida de categorias de trabalhadores vulneráveis, encerrando uma discussão iniciada na construção da Constituição Federal de 1988 —quando a redução da jornada passou de 48 para 44 horas sob a promessa de que cairia para 40 horas semanais.
Para isso, parte da imprensa precisa encontrar o equilíbrio. Equilíbrio que ela tanto alardeia perseguir.