
Por Leonardo Sakamoto no Uol
O governo Donald Trump bombardeou hoje Caracas e outras três regiões da Venezuela e afirmou ter sequestrado Nicolás Maduro e sua esposa, levando-os para fora do país para serem julgados sob a lei norte-americana.
Com as bombas que iluminaram a noite do país vizinho, a remoção de um ditador usando uma justificativa que todos sabem ser cortina de fumaça, os grandes interesses nas imensas reservas de petróleo do país atacado e uma intervenção direta realizada sem agressão prévia do outro lado e sem autorização do Conselho de Segurança da ONU, os Estados Unidos criam seu Iraque na América do Sul.
Que tipo de atoleiro, de crise humanitária ou de guerra civil isso vai produzir, só o tempo vai dizer. Até porque é preciso avaliar o se isso foi negociado internamente na Venezuela. Mas quanto à ação dos EUA, a história se repete. Neste caso, primeiro como farsa e, depois, como pornochanchada.
Maduro é um autocrata, como venho repisando neste espaço há anos, e fraudou as eleições, mas uma solução para a crise no país vizinho precisa passar por pressão e negociação, e não por intervenção armada, que coloca em risco a paz no subcontinente e a vida dos cidadãos da Venezuela. Não à toa, a maioria do mundo, com exceção de alguns líderes excêntricos, como o presidente argentino, e de vassalos de Trump, como os que buscam usar os fatos de hoje nas eleições no Brasil, expressaram preocupação com o ataque.
E, por outra, se os Estados Unidos resolvessem bombardear as autocracias e remover seus líderes do poder, teriam que começar por aquelas do Oriente Médio que ele chama de aliadas, como a Arábia Saudita — maternidade de movimentos extremistas. Em vez disso, ele recebeu, em um jantar, na Casa Branca, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, em novembro. Acusado pela própria CIA de mandar matar um jornalista do Washington Post, Salman foi chamado de “grande amigo” por Trump.
impresionante como se escucha todo eso 😳 #Caracas #Venezuela pic.twitter.com/2GMo45VfRm
— Javierhalamadrid (@Javierito321) January 3, 2026
Removendo Maduro e ajudando a colocar um governo mais simpático a ele no lugar, Trump pode facilitar o acesso das companhias norte-americanas ao mar de petróleo na Venezuela, muito mais próximo do que o turbulento Oriente Médio. E produz entretenimento para consumo interno, em um momento em que sua popularidade cai devido à percepção de seu eleitorado de que o custo de vida da classe trabalhadora aumentou. Atropela também sua promessa eleitoral de interromper gastos em guerra ao redor do mundo.
No Iraque, a justificativa para a invasão foram as inexistentes armas de destruição em massa que estariam sendo produzidas e armazenadas para uso contra o Ocidente. Na Venezuela, a acusação é de que Maduro chefiaria uma rede narcoterrorista de produção e exportação de drogas para os EUA, apesar de não apresentar provas nesse sentido. Em ambos os casos, governos republicanos precisando de popularidade e muitos hidrocarbonetos.
Isso abre um precedente perigoso para a região, que é quintal dos Estados Unidos, mas estava acostumada a interferências mais sutis, como a CIA agindo para derrubar governos, ajudar grupos fiéis aos interesses de Washington e assassinar desafetos do Tio Sam. Com os bombardeios e o sequestro de Maduro, entramos em uma nova fase. Se a ação militar dos EUA — tomada de forma ilegal, sem autorização do Congresso — não enfrentar resistência interna e internacional, intervenções escrachadas podem virar hábito.
De las mejores tomas de esta madrugada en Caracas. Que enfermito el de la bocina pic.twitter.com/VDSnTPpy0S
— Franco Rinaldi (@FrancoVRinaldi) January 3, 2026
Uma mudança no regime venezuelano depende de acordo com os militares, que estão imbricados em várias camadas do governo e da vida venezuelana para substituição do nome. Ou de guerra aberta. Aliás, a facilidade com a qual Maduro foi capturado leva a perguntas óbvias: militares sabiam dos planos de sequestro e ajudaram em busca de uma saída negociada para a crise?
Isso não torna todos os países automaticamente passíveis de serem invadidos, mas fragiliza a paz em uma região em que esse tipo de guerra não acontece. E, a depender do que aconteça, novas ondas de refugiados venezuelanos vão chegar aos nossos países.
O irônico é que, neste sábado, Trump perde qualquer legitimidade para negociar o fim da guerra na Ucrânia. Apesar das críticas públicas ao ataque à Venezuela, Vladimir Putin deve estar rindo neste momento. E que a concessão de um Prêmio Nobel da Paz asfaltou o caminho, pelo menos do ponto de vista simbólico, para bombas.