Sakamoto: Conversas do Master confirmam que o celular é o maior delator do Brasil

Atualizado em 19 de abril de 2026 às 10:28
Daniel Vorcaro – Foto: Divulgação/Banco Master

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Brasília espera com calmantes e ansiolíticos a delação de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Mas, tal qual ocorreu na investigação sobre a tentativa de golpe de Estado bolsonarista, o melhor e o mais sincero delator continua sendo os celulares dos envolvidos.

As mensagens reveladas não são apenas registros de conversas, mas fragmentos de um modelo de poder no qual a fronteira entre público e privado deixa de existir. E quem paga a conta: como sempre, sou eu, és tu, é o rabo do tatu.

Neste caso, elas afundam na lama a gestão do hoje ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB).

Reportagem de hoje de Fábio Serapião, no UOL, traz mensagens encontradas nos celulares dos ex-sócios do Master, Daniel Vorcaro e Augusto Lima, revelando os bastidores da articulação para salvar a instituição, que vendeu bilhões em títulos podres ao Banco de Brasília. Cruas, diretas, sem filtro, elas mostram como o sistema funciona quando acredita que ninguém está olhando.

O que os diálogos escancaram não é apenas uma tentativa criminosa de salvar um banco em colapso, que envolveu a compra de apoio do BRB por meio de propina na forma de apartamentos de luxo e de muita ajuda de políticos do centrão, que chegaram a aprovar impeachment diretores do Banco Central para ajudar o Master. É algo mais estrutural: a captura de mecanismos públicos por interesses privados, com a participação de governos nas unidades da federação.

As conversas mostram que o banco público sob a responsabilidade de Ibaneis Rocha foi peça-chave na tentativa de sustentar artificialmente o Master, mesmo quando já havia sinais evidentes de insolvência. E apesar de ter se reunido várias vezes com Vorcaro, inclusive com jantar na casa do empresário, o governador chegou a afirmar que entrava mudo e saía calado das reunião. A desculpa trata o eleitor como um completo otário.

O ex-governador do DF Ibaneis Rocha – Foto: José Cruz/Agência Brasil

Em outubro de 2025, quando o Banco Central já havia barrado a operação de compra da instituição pelo BRB, uma conversa entre Augusto Lima, ex-sócio do Master, e sua esposa, Flávia Péres, ex-ministra no governo Jair Bolsonaro, resume o enredo com brutal simplicidade: “É brincadeira. Não tem a menor condição de ficar de pé”, diz Lima. Ela então pergunta: “E como pagou isso hoje?” A resposta: “BRB”.

Vale lembrar que essa engrenagem não se limitava ao Distrito Federal. Para evitar seu colapso, o Master buscava recursos em fundos de previdência estaduais, que cuidam de aposentadorias de professores, garis, enfermeiros e policiais, como a RioPrevidência, sob gestão de Cláudio Castro (PL), e a Amprev, do Amapá, de responsabilidade de Clécio Luís (União Brasil).

Nessa época, o mercado já sabia que Vorcaro vendia terrenos na lua. Mesmo assim, cascalho público destinado à segurança futura de trabalhadores foi colocado na linha de frente de uma operação de alto risco. Culpar apenas os presidentes dos fundos e ignorar a responsabilidade dos governadores é abusar da amizade.

O problema não é apenas um banco privado que tentou se salvar a qualquer custo, mas o fato de que encontrou portas abertas no setor público. Seja por corrupção, omissão ou complacência, estruturas nos estados e no Distrito Federal foram incorporadas à tentativa de sustentar algo podre.

Quando bilhões saem de um banco público para sustentar uma operação suspeita, quando recursos de aposentadorias são expostos a riscos que nem o mercado quis assumir, não estamos falando de erro técnico. Mas de decisão ou da falta deliberada dela.

E entre um ansiolítico e outro, Brasília percebe que a delação dos celulares levanta o sarrafo. O que Vorcaro vai ter que piar para reduzir sua pena quando for a sua vez?

Diario do Centro do Mundo
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