
Punir quem ajudou a quadrilha do Banco Master ou se beneficiou da grana dela é fundamental e civilizatório. Mas o debate público vem se reorganizando de forma conveniente: aponta-se o dedo para políticos, enquanto uma parte da história, a do mercado financeiro, vai ficando fora do foco. Porque, convenhamos, dado o tamanho da suruba, o caso Master só chegou ao seu tamanho com a ajuda de gente graúda em palácios, mas também em escritórios de gosto esteticamente duvidoso.
Quem exige explicações dos Três Poderes, além de governos estaduais e prefeituras, mas esquece que parte do sistema financeiro não foi mero espectador inocente de sua própria tragédia, mas sócio, dança nu com a seletividade.
O Master não captou dezenas de bilhões de reais sozinho. Ele não tinha agência em cada esquina, com operador simpático oferecendo cafezinho e publicidade bonita no horário nobre. O dinheiro chegou até ele por meio de plataformas de investimento que funcionaram como a principal porta de entrada do varejo para o banco, que empurraram os famigerados CDBs para investidores comuns. É dinheiro suficiente para construir uma ponte entre o risco sistêmico e a promessa vazia da rentabilidade turbinada.
O argumento de defesa dessas instituições é de que os títulos eram legais, pois o banco tinha autorização do Banco Central e retirar os papéis da prateleira poderia gerar instabilidade no sistema. Em outras palavras: ninguém poderia agir com base em suspeitas. Mas essa justificativa ignora um detalhe constrangedor. Grandes corretoras têm muito mais estrutura que vendedores de feira (que, aliás, responsabilizam-se totalmente pelos produtos que oferecem ao público). São organizações com equipes sofisticadas de análise de risco, economistas premiados, departamentos de compliance e capacidade de produzir relatórios detalhados sobre qualquer semovente que fature um décimo do que o Master movimentava.
Ainda assim, os CDBs continuaram sendo oferecidos com rentabilidades agressivas, embalados com uma muleta poderosa: o Fundo Garantidor de Crédito. A lógica era simples e extremamente eficiente do ponto de vista comercial, pois se algo desse errado, o FGC pagaria até R$ 250 mil. Com isso, a promessa de segurança virou isca e ninguém se preocupou com os terrenos na lua que estavam sendo vendidos.
O problema é que o FGC não é uma varinha mágica que dissolve riscos. Quando o banco quebrou, milhares de investidores ficaram meses com dinheiro travado esperando ressarcimento. Outros descobriram que haviam ultrapassado o limite de cobertura. Resultado: prejuízo direto. Mas segue o jogo: é só mandar mais coletes puffer aos clientes como mimo para mostrar como eles são importantes para nós.
E isso era apenas a cereja do bolo. As investigações da Polícia Federal e do Ministério Público revelaram algo ainda mais perturbador: o Master estava inserido em uma rede complexa de operações financeiras criminosas que envolvem fundos de investimento, operadores de mercado e gestores. Rede investigada por lá é cascalho até para o crime organizado.
Um dos episódios mais emblemáticos envolve operações com fundos geridos pela Reag Investimentos. O dono do banco, Daniel Vorcaro, faturava centenas de milhões com transações relâmpago de cotas infladas artificialmente. O modelo foi exposto um rosário de vezes, aqui no UOL, por investigações como as de Amanda Rossi e Natália Portinari. O excesso de óleo de peroba na cara de pau de alguns dos esquemas fazem até pirâmide financeira convencional corar de vergonha.
Isso sem contar a venda de bilhões em Letras Financeiras do Master diretamente para fundos de previdência de servidores públicos, como no Rio e no Amapá. Papéis que prometiam retornos estratosféricos, mesmo diante dos problemas já enfrentados pela instituição. Mesmo assim, foram comercializados em larga escala com a anuência dos gestores desses fundos e governadores. E, com isso, parte da grana que garis, professores e enfermeiros contavam para a aposentadoria virou pó. Ou bacanal em Trancoso.

A quebra de sigilos e as investigações indicam que estruturas usadas pelo banco para movimentação de dinheiro podem ter se conectado a esquemas de lavagem ligados a outros crimes, inclusive estruturas utilizadas por organizações criminosas como o PCC para dar uma banho de legalidade em grana oriunda da venda de combustível adulterado.
Ou seja, não estamos falando apenas de erro de avaliação de risco. Estamos falando de um ecossistema. Um ecossistema em que gestores ganham taxas, operadores embolsam comissões, plataformas ampliam distribuição e investidores brincam com o risco alheio. Até que o castelo desmorona.
E então começa o jogo de empurra. Políticos, gestores públicos e reguladores são sim responsáveis. Mas focar nisso apenas é conveniente demais para quem ganha dinheiro quando o mercado funciona e pede silêncio quando ele falha.
O escândalo do Banco Master não é apenas um caso de corrupção política ou má gestão pública. É também um retrato incômodo de como parte do mercado financeiro opera: socializando prejuízos depois de privatizar lucros. Ignorar essa metade da história, evitando punições a engravatados e mudanças na forma como negócios são feitos, não é apenas um erro analítico. É uma escolha. E, como toda escolha, beneficia alguém.
Vai vir coisa contra gente graúda do mercado também ou a delação do Vorcaro vai ser meia bomba?
Originalmente publicado no site do UOL