Sakamoto: Domiciliar de Bolsonaro leva QG eleitoral da Papudinha para condomínio rico

Atualizado em 25 de março de 2026 às 7:56
O ex-presidente Jair Bolsonaro, aponta para a tornozeleira eletrônica. Foto: Divulgação

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Jair vai para casa, pelo menos por 90 dias, para se recuperar de uma pneumonia. E, com ele, o QG eleitoral da campanha do filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL), à Presidência da República migra da Papudinha para o rico condomínio Solar de Brasília.

O ministro Alexandre de Moraes, do STF, autorizou hoje a prisão domiciliar humanitária temporária do ex-presidente. Após esse prazo, a situação de saúde será reavaliada. Esperemos que ele se recupere prontamente. Primeiro, porque desejar o sofrimento de presos é algo inconcebível para quem se diz civilizado. E porque ele ainda tem quase 27 anos de pena a cumprir pela tentativa de golpe de Estado e por organização criminosa armada.

Moraes impôs condições para dificultar que a casa vire o quartel-general nacional da extrema direita nas eleições, proibindo que ele use celulares e grave vídeos ou que receba visitas de qualquer pessoa que não seus advogados e filhos em horários pré-determinados às quartas e sábados. Ou seja, não vai ter romaria de políticos como estava acontecendo na Papudinha.

Porém, será o QG da campanha do filho 01 no período em que lá estiver. E como a instalação de bloqueadores de celulares e de internet seria algo esdrúxulo em um condomínio, não é possível evitar que ele, com a ajuda de outras pessoas na casa, passe dia e noite fazendo articulação política e se comunicando com o mundo.

Como era de se esperar, mesmo presidiário, Jair Bolsonaro continuou dando as cartas na direita fazendo com que sua cela se tornasse local de peregrinação de políticos em busca de apoio e benção eleitoral.

Como Lula também continuou influenciando a política mesmo preso, até aí, não é exatamente inédito.

Mas os aliados, familiares e seguidores de Jair se esgoelaram de gritar que ele estava sendo vítima de tortura por parte do Estado brasileiro. Foi a primeira vez em que uma vítima de tortura contava com uma cela de 65 metros quadrados, com banheiro, cozinha, quarto e área particular ao ar livre, cinco refeições por dia, atendimento médico a qualquer momento, podendo interagir com outros presos e receber uma profusão de visitas políticas e ainda usava o presídio como central de articulação eleitoral.

Vale lembrar que Bolsonaro está preso exatamente porque, quatro anos atrás, tentou melar exatamente o resultado das eleições usando as Forças Armadas.

Não se ignora que o ex-presidente tenha um quadro de saúde que requer cuidados, principalmente após o grave atentado que sofreu em 2018, mas ele vinha demonstrando disposição e condições de receber as visitas para tratar de política.

Com exceção de pedidos como o de Valdemar da Costa Neto, presidente do seu partido, o PL, e de envolvidos diretamente na trama golpista, o “torturador”, ministro Alexandre de Moraes, do STF, autorizou um rosário de deputados e senadores a visitar o homem. Diziam que era apenas para ver o amigo. Ahã.

O ministro Alexandre de Moraes, do STF, falando e gesticulando, em pé e sério
O ministro Alexandre de Moraes, do STF – Reprodução

Da Papudinha, o ex-presidente costurou a obediência do governador Tarcísio de Freitas, que ouviu do próprio que, na falta de Jair, ele deverá trabalhará por Flávio e não por si na disputa pelo Planalto. Também teve autorização para receber pessoas importantes na construção da campanha de seu primogênito, como nomes ligados ao agronegócio.

A Papudinha não virou calabouço, virou quartel-general. Não era masmorra, mas escritório político com grade na porta. Bolsonaro não cumpria pena isolado do mundo, mas administrava seu capital eleitoral de dentro da cadeia, recebia aliados, dava ordens, definia candidaturas e mantinha a máquina funcionando. Mesmo com os direitos políticos cassados. Se havia algo violado ali, não era o corpo e a dignidade do condenado, mas o bom senso.

Agora, com a mudança de sede e proibições de visitas, o QG eleitoral vai se adaptar. Mas precisa ser muito ingênuo para imaginar que o isolamento doméstico represente silêncio político.

A cena apenas muda de endereço. Sai a cela transformada em gabinete político, entra a casa transformada em sala de estratégia.

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