Sakamoto: dono do Master paga de humilde, mas tinha meio Brasil no bolso

Atualizado em 30 de janeiro de 2026 às 15:39
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Foto: Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL

Daniel Vorcaro decidiu vestir o figurino do homem injustiçado. Diante da Polícia Federal, em depoimento no fim de dezembro e que foi liberado agora pelo STF, o banqueiro resolveu minimizar suas conexões políticas, reduzindo seu tamanho e importância. Não deveria, afinal, ele é Master.

“Se eu tenho tantas relações políticas, como estão dizendo, e se eu tivesse pedido a ajuda desses políticos, eu não estaria com a operação do BRB negada, eu não estaria aqui de tornozeleira, eu não teria sido preso e estava com a minha família sofrendo o que a gente está sofrendo”, afirmou.

A declaração tentou vender a ideia de que influência de verdade não deixa rastros, não falha e jamais dá errado.

É um raciocínio curioso. Segundo essa lógica, o sujeito só pode ser considerado poderoso se nunca tropeçar. Se cair, vira automaticamente um Zé Ruela injustiçado pelo sistema. O problema é que, no Brasil real, poder não é garantia de sucesso eterno. Garante sucesso por muito tempo, mas depende da competência do criminoso e de quem o investiga. Para seu azar, ele tropeçou na PF.

Vorcaro argumenta que, se tivesse tantas relações políticas assim, não estaria com uma operação de bilhões negada, nem sendo investigado por uma transação de R$ 12 bi em créditos fraudulentos entre o Master e o Banco de Brasília.

O que ele não diz é que o seu dinheiro e a compra de influência rendeu a ele anos e anos de proteção, sendo incensado e festejado em círculos de poder no Brasil. Deu a Vorcaro e à sua família uma bancada no Congresso Nacional, excelentes negócios à custa da grana do contribuinte junto a governos estaduais e do Distrito Federal, amigos nos Três Poderes, da extrema direita à esquerda, sócios e parceiros na Faria Lima e entre empresários graúdos.

Mas a história brasileira mostra que, às vezes, influência não impede investigações, principalmente quando tudo é muito descarado. E relações políticas não garantem impunidade automática, apenas aumentam o custo político de aplicá-la. Quando o escândalo cresce demais, quando o bodum fica forte demais, até quem tinha meio Brasil no bolso acaba tendo que devolver o troco — nem que seja em parcelas judiciais.

Fachada do Banco Master em São Paulo. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

O discurso da humildade tardia serve para um propósito claro: transformar privilégios em coincidências e relações em meras casualidades. O banqueiro deixa de ser um articulador bem relacionado e passa a ser apenas um empreendedor incompreendido, vítima de exageros, erros alheios e do azar. E olho gordo da imprensa, claro. Tudo conspira contra ele, menos as próprias escolhas.

Não é que Vorcaro esteja errado ao dizer que influência não garante final feliz. Ele só esqueceu de mencionar que, sem ela, dificilmente o jogo teria chegado a esse tamanho. A tornozeleira, afinal, não contesta o caminho percorrido. Só indica que, desta vez, o tapete vermelho acabou antes da porta de saída.

Por fim, mas não menos importante: chama a atenção não só o conteúdo do depoimento, mas o seu formato. Vorcaro não falou apenas à Polícia Federal, mas também à plateia, sabendo que o conteúdo viria a público mais cedo ou mais tarde.

Construiu uma narrativa ensaiada, com começo, clímax e vitimização, como quem planeja um VT de BBB. O cenário não era a casa em Curicica, mas a acareação na PF. Ainda assim, o roteiro é batido pacas. Não duvido que, em breve, em uma conta de influenciador apareça um recorte com close na injustiça, trilha sonora da família sofrendo, corte rápido para a tornozeleira como símbolo máximo da “perseguição”.

Novamente, não se trata de esclarecer fatos, mas de disputar sentido. O depoimento virou peça de comunicação, tentativa de enquadrar a investigação como abuso e de transformar um caso de polícia em drama. Dessa forma, ele tenta evitar o julgamento da opinião pública, buscando converter desconfiança em empatia e crimes complexos em má sorte pessoal.

É uma tática antiga entre gente poderosa quando o cerco aperta: trocar o discurso da eficiência pelo da fragilidade, abandonar a pose de tubarão e vestir o figurino de peixinho injustiçado no aquário malvado. O problema é que a Polícia Federal não vota por SMS, nem a realidade se resolve no paredão de domingo à noite.

No fim das contas, o VT pode até emocionar parte do público, mas não apaga contratos, rastros financeiros, relações políticas e operações bilionárias. Aqui, o jogo é outro. E nele, carisma não substitui prova, vitimismo não anula investigação e edição nenhuma muda os fatos.