Sakamoto: Eduardo Bolsonaro reforça “Tariflávio” ao sugerir negociar Pix com os EUA

Atualizado em 4 de junho de 2026 às 19:40
Trump
Flávio Bolsonaro, Paulo Figueiredo, Eduardo Bolsonaro e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Foto: Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, via UOL.

Existe uma diferença fundamental entre ser ingênuo e ser útil ao adversário. Eduardo Bolsonaro, ao sugerir que o Brasil poderia negociar o Pix com Washington, citando o sistema de pagamentos Zelle norte-americano como exemplo, cruzou essa fronteira com desenvoltura. E, de lambuja, jogou mais lama na candidatura do próprio irmão, que anda atolado com o apelido de “Tariflávio”.

O timing foi péssimo. O governo Trump anunciou um tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros, e o documento do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) listou o Pix nominalmente como algo que a Casa Branca considera irrazoável. Uma semana após Flávio Bolsonaro visitar Trump buscando ajuda para a sua candidatura, os EUA colocaram o sistema de pagamentos brasileiro na mira, levando o senador a ser responsabilizado por isso nas redes. E a resposta de Eduardo foi sugerir que o inegociável é negociável, dada uma suposta similaridade entre os sistemas, se Lula não estiver no poder.

“Os EUA têm mecanismos muito semelhantes ao Pix. Como por exemplo o Zelle. O Pix dos Estados Unidos é o Zelle. Então, dá para você ir para a mesa de negociação dos americanos com bons argumentos. Dá para sentar, dá para negociar. Eles têm interesses que se complementam, como terras raras”, disse em entrevista à TMC.

O Pix é uma das infraestruturas de transferência de dinheiro mais democráticas que o mundo já construiu. É o meio pelo qual um trabalhador informal recebe seu sustento, pelo qual a feirante recebe do cliente sem ter que pagar taxa de cartão, que o motorista de aplicativo ou o taxista recebem a corrida, que grandes empresas recebem pagamentos de forma imediata.

A Febraban, entidade que representa os maiores bancos do país (e que não é exatamente um bastião do lulismo), teve que vir a público em reação à decisão de Trump para dizer o óbvio: o Pix não é um produto comercial, é uma infraestrutura pública de pagamentos, aberta a bancos nacionais e estrangeiros, inclusive norte-americanos.

O Zelle, que Eduardo apresentou como equivalente do Pix nos EUA, é operado por uma rede de bancos privados e não pelo Banco Central de lá e não é ágil como o sistema brasileiro. Compará-los como intercambiáveis é como dizer que o SUS e um plano de saúde particular são a mesma coisa porque os dois tratam doentes.

Mas o problema do ex-deputado federal não é técnico. É político, e é grave para o clã Bolsonaro.

Flávio Bolsonaro está asfaltando sua candidatura presidencial para 2026 sobre a narrativa de que seria capaz de negociar melhor com os norte-americanos. E o irmão do candidato aparece em vídeo sugerindo que o Brasil deveria colocar o Pix na mesa de negociação. Considerando que os brasileiros preferem perder várias Copas do Mundo do que o Pix, aceitar negociar o Pix é visto como traição.

A reação nas redes foi imediata e cirúrgica. “Vassalagem” virou trending topic. “Tariflávio”, neologismo que associa o tarifaço à visita do senador a Trump, ganhou mais combustível. Duro, mas politicamente eficaz: a narrativa de que os Bolsonaros pedem que Trump prejudique o Brasil para que voltem ao poder se consolida a cada declaração do clã.

Eduardo Bolsonaro não é um político menor. É o filho 03, o mais próximo de Trump, o que tem contatos com a Casa Branca, o que mora no Texas, o que seria ministro das Relações Exteriores do Brasil em um governo do irmão. Quando fala, fala com peso. Não é ingenuidade. É sinalização. E sinalização tem consequências, especialmente para quem está tentando se apresentar como alternativa de poder.

Flávio Bolsonaro quer mostrar que os Bolsonaro têm acesso ao poder norte-americano. Eduardo deu uma declaração que foi explorada como se houvesse um preço que o clã está disposto a pagar por esse acesso.

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