
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Para a surpresa de ninguém, a maioria (55%) dos eleitores de Jair Bolsonaro não acredita nas acusações de que Michelle Bolsonaro tenha sido maltratada e humilhada por Flávio. Mas, para o azar do senador, 62% dos eleitores que se consideram independentes, ou seja, não são nem petistas nem bolsonaristas, acreditam. E 41% tendem a concordar com ela, frente a 10% com ele.
São os independentes que definem eleições polarizadas, como a que viveremos. O dado faz parte da nova pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada hoje. A margem de erro é de um ponto.
Para piorar, 30% dos bolsonaristas creem no que ela disse e 17% dos seguidores do ex-presidente tendem a concordar com ela, o que também não é pouco em uma eleição que pode ser definida no olho eletrônico. Entre os independentes, 68% apontam que o barraco entre Flávio e Michelle enfraquece de alguma forma a candidatura do primogênito do presidente.

Ao tentar esmagar a ex-primeira-dama sob o peso do machismo que sempre serviu de argamassa para o seu grupo político, o 01 pode ter dado um tiro de bazuca no próprio pé. O clã, acostumado a tratar mulheres como coadjuvantes submissas no altar de seu conservadorismo (com a ajuda de muitas das mulheres do próprio grupo, diga-se de passagem), achou que bastaria uma demonstração de força e intimidação para varrer Michelle, que disputa com eles o sentido da extrema direita.
A fatura desse canibalismo interno não será cobrada pela claque do cercadinho, mas pelo eleitorado independente, exatamente onde as eleições majoritárias são decididas no Brasil.
Flávio pode até achar que venceu a batalha familiar pelo monopólio do espólio do pai. Mas, ao transformar a misoginia em tática de sobrevivência interna, periga descobrir na frente das urnas que lutou tanto pela hegemonia do bolsonarismo apenas para herdar um latifúndio de cinzas.