Sakamoto: Elo PCC-Master mostra risco do topa tudo por dinheiro na Faria Lima

Atualizado em 2 de fevereiro de 2026 às 9:55
Fachada do Banco Master na rua Elvira Ferraz em Itaim Bibi, em São Paulo. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

A revelação de que o Banco Master realizou R$ 2,8 bilhões em operações de câmbio para uma empresa investigada por lavar dinheiro para o PCC é um retrato do que acontece quando parte do sistema financeiro acha que o Brasil vive sob o caos de um programa de auditório dominical e decide operar no modo “topa tudo por dinheiro”. Alguns na Faria Lima insistem em tratar isso como ousadia empreendedora, o que frequentemente acaba se confundindo com negligência deliberada.

Segundo investigação da Polícia Federal, a One World Services (OWS), empresa de criptoativos apontada como intermediária de operações ligadas ao PCC e até de transações sob suspeita de conexão com o Hezbollah, usou contas no então Banco Máxima (rebatizado depois como Master) para compras bilionárias de bitcoins destinadas a condenados por lavagem de dinheiro para o crime organizado.

A PF afirma que o banco descumpriu regras básicas de compliance de forma proposital, aceitando justificativas frágeis para as operações, deixando de exigir documentação obrigatória e fechando os olhos para inconsistências grosseiras. No português de boteco: preferiu não perguntar demais para não perder o cliente.

Nada disso é exatamente novidade para quem acompanha a trajetória recente do Master e de seu controlador, Daniel Vorcaro. Cavalgando relações políticas com os Três Poderes, a instituição vendia terrenos na Lua em forma de CDBs e queimou fundos de previdência de servidores públicos por meio de suas letras financeiras.

Contrato assinado por Vorcaro previa que dinheiro para compra de rede de restaurantes deveria ser aplicado no Master
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Foto: Reprodução

O problema não é apenas o banco em si, mas o ambiente que normaliza esse tipo de conduta. E aqui falo não apenas da política e da Justiça, mas de um ecossistema em que “inovação” vira sinônimo de driblar controles e “desburocratização” serve como álibi para afrouxar a vigilância sobre fluxos bilionários.

O caso também expõe outra perversidade recorrente: quando o dinheiro sujo circula de terno e gravata, parte do mercado finge não reconhecer o cheiro. Bancos e instituições mais responsáveis rompem relações com empresas ao perceber inconsistências ou sequer aceitam fechar negócios — não porque são bonzinhos, mas porque sabem o BO que isso traz. Para muita gente, contudo, o risco sistêmico e até criminal parecem aceitáveis, desde que rendam gorda comissão. Ou, pior: esses riscos deixam de existir diante da percepção de que gente rica com amigo$ não vai presa.

Há quem tente reduzir o episódio a um problema técnico ou a uma falha pontual de compliance já resolvida em acordo administrativo com o Banco Central. É uma leitura conveniente, mas perigosa. Porque ignora o padrão. E porque reforça a ideia de que, no Brasil, crimes financeiros só são realmente punidos quando cometidos por quem não frequenta os eventos, jantares e seminários corretos.

No fim das contas, o elo entre PCC e Master não é apenas um escândalo policial. É um alerta institucional. Mostra o risco de um sistema financeiro que, embalado pela lógica do lucro a qualquer custo, faz a egípcia enquanto discursa sobre eficiência, meritocracia e modernidade.

Quando a Faria Lima decide que vale tudo, alguém sempre paga a conta. E raramente é quem assinou os contratos.