Sakamoto: Fim do 6×1 virou tsunami eleitoral que engoliu a Bancada do Burnout

Atualizado em 17 de abril de 2026 às 19:06
Manifestação na avenida Paulista pelo fim da escala 6×1. Foto: Divulgação

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

É raro, muito raro, ver lobistas que representam poderosos setores da sociedade tendo que ralar por uma batalha que sabem estar perdida, como vem sendo o caso do fim da escala 6×1. Afinal, é consenso no Congresso que, se colocada em votação, ela será aprovada — afinal, deputados e senadores não são lemingues que saltam no abismo. Não à toa, o esforço maior dos lobistas neste momento é de, forma inglória, empurrar a pauta para fora do ano eleitoral, ou seja, para o esquecimento. O argumento pode ser visto no rosário de reportagens e artigos pautados sob inspiração deles.

Para evitar que isso aconteça, o governo Lula mandou um projeto de lei de urgência constitucional que, na prática, está funcionando como um “seguro” caso a proposta de emenda constitucional que trata da matéria não avance ou seja desfigurado.

Sim, há membros da Bancada do Burnout defendendo, por exemplo, a redução de 6×1 para 5×2, mas com a manutenção de 44 horas semanais ao invés da redução prevista para 40. Isso significa jornadas diárias de quase nove horas. Outros defendem redução proporcional de salário.

Quando 71% da população apoia a mudança, segundo o Datafolha, não estamos falando de nicho ideológico, mas do Brasil real. Do caixa de supermercado católico que passa o domingo inteiro em pé. Da atendente evangélica que só vê o filho dormindo. Do motorista de aplicativo de direita que mede a semana em quilômetros, não em dias de descanso. Da faxineira de esquerda que está pifando porque o corpo não consegue descansar. Esse Brasil não está debatendo teoria econômica, mas contando as horas para a lei mudar.

A política, como sempre, corre atrás da realidade. E quando ela chega atrasada, tropeça. Parlamentares que tratam o fim da 6×1 como “exagero”, “radicalismo” ou “irresponsabilidade fiscal” sabem que o país já virou a página. O eleitor não quer mais saber se o deputado “entende do mercado”, quer saber se ele entende de vida. Não adianta gravar vídeos bem editados defendendo que tudo permaneça como está, em nome do patrão ou em nome de Deus.

Manifestação sobre o fim da escala 6×1. Foto: Divulgação

O argumento de que vai quebrar empresas soa cada vez mais como desculpa reciclada. Foi assim como as férias, o 13º, a Lei Áurea. Sempre há alguém prevendo o apocalipse quando o trabalhador ganha um pouco mais de humanidade, como já disse aqui. E, curiosamente, o mundo continua girando, só que com menos gente exausta. Vai ter pequena empresa que precisará de adaptação e apoio? Sim, mas tudo pode ser resolvido — e sem jogar a fatura para o Estado, como querem alguns.

Estamos às portas de um ciclo eleitoral em que o humor do eleitorado está mais direto. O próprio Lula vem sendo cobrado porque, apesar de crescimento do PIB e da renda do trabalho e da queda do desemprego, a percepção na qualidade de vida não melhorou tanto quanto eleitoralmente ele gostaria por conta da inflação acumulada dos alimentos e do endividamento. A paciência da população está menor. E isso pesa também sobre o Congresso.

Nesse contexto, votar contra o fim da escala 6×1 deixou de ser uma posição técnica e virou uma declaração pública de lado: ou você está com quem se lasca de trabalhar ou está com quem acha isso normal.

O Congresso pode até tentar segurar a maré, diluir, compensar. Mas há momentos em que a política não conduz, é arrastada. E este parece ser um deles. O fim da escala 6×1 deixou de ser debate e virou símbolo. Símbolo de um país que cansou de estar cansado.

Quem ainda não percebeu isso talvez descubra do jeito mais pedagógico possível: diante de uma urna eletrônica. Porque quando uma demanda vira tsunami, quem fica parado na frente, tentando impedir que ele avance, acaba se afogando.

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