Sakamoto: Flávio Bolsonaro copia Trump e quer mídia como paga-lanche de campanha

Atualizado em 29 de março de 2026 às 11:13
Senador Flávio Bolsonaro (PL-SP) discursa na convenção conservadora CPAC, em Dallas, no Texas (EUA). Imagem: Daniel Cole

Em pouco mais de 24 horas, a pré-campanha de Flávio Bolsonaro produziu dois factóides, tentando usar a imprensa como catapulta. Isso precisa acender a luz amarela em veículos de comunicação para evitar que sirvam de paga-lanche de candidatos. Pelo menos, entre os veículos que não desejam servir.

Ontem, o senador afirmou, em uma conferência da extrema direita em Dallas, que Lula “faz lobby nos EUA para proteger organizações terroristas”, dizendo que o brasileiro defendia o PCC e o CV. Claro que é mentira. O governo tenta evitar que os EUA decretem facções como terroristas para não abrir caminho a intervenções militares no Brasil ou interferências em nosso sistema financeiro, ao mesmo tempo que pede aos EUA parceria no combate ao crime. A família Bolsonaro, por outro lado, já sugeriu a Trump que bombardeasse navios na baía de Guanabara.

Na sexta o seu aliado, deputado Alfredo Gaspar, pediu prisão preventiva do filho de Lula em seu relatório da CPMI do INSS sob a justificativa de que o empresário teria fugido do Brasil, quando Fábio Luís Lula da Silva, que mora na Espanha, já havia se colocado à disposição do STF para prestar esclarecimentos. Dois dias antes, o deputado afirmara que estava se filiando ao PL “atendendo a uma convocação do senador e futuro presidente da República, Flávio Bolsonaro”. O relatório, que colocou aposentados em segundo plano ao se transformar em arma eleitoral, acabou, claro, sendo rejeitado. Mas gerou as manchetes que a campanha queria.

Alfredo Gaspar

Em ambas as situações, o bolsonarismo sabia que a imprensa iria cumprir sua função ao cobrir dois eventos de interesse público, o final da CPMI do INSS e o CPAC, nos EUA. Diante disso, usou desinformação a fim de tentar reforçar a estratégia de colar no petista a pecha de amigo de bandido, considerando que a roubalheira contra os aposentados e a segurança pública são dois assuntos que estão na pauta eleitoral.

A extrema direita brasileira está cumprindo o papel dela ao tentar fazer tudo o que for possível para voltar ao poder, soltar Jair Bolsonaro e punir o STF por ter mandado o patriarca e generais para a cadeia. E, na batalha pelo poder, um grupo político que tentou até golpe de Estado a fim de se perpetuar, vai usar qualquer arma. Distorção e mentira são apenas duas delas.

Quem precisa criar salvaguardas para isso é a imprensa brasileira. Ela não pode se furtar a divulgar ações de candidatos de qualquer espectro político, como alguns defendem equivocadamente, mas precisa garantir que, junto com o factual, venham conteúdo explicando o que elas significam. Não apenas contextualizando, mas apontando as distorções e incongruências. Isso não é interferir na cobertura. Pelo contrário, interferência, neste caso, é a inação.

O UOL, acertadamente, apontou o que significava o relator da CPMI, que havia jurado lealdade a Flávio Bolsonaro, pedir a prisão do filho de Lula. E a cobertura da sempre competente Mariana Sanches, trazendo as informações da CPAC, estava ladeada de uma análise parruda de Josias de Souza, que explicou ao leitor o que significavam aquelas declarações na tentativa do senador de se vender como moderado (sic). Há veículos que foram na mesma linha, mas outros infelizmente, deram a notícia e saíram andando. E, consciente ou inconscientemente, acabaram deixando o projeto do senador muito satisfeito.

A imprensa dos Estados Unidos muitas vezes se furtou na campanha de 2016 a dizer claramente que Donald Trump estava mentindo diante da metralhadora de fakes do então candidato. Passou os anos seguintes em discussões sobre o que poderia ter feito de diferente. Por causa disso, em 2020 e em 2024, parte dos veículos já mudou o comportamento. Ganharam a ira do candidato que voltou a ser presidente. Faz parte. Melhor aguentar a pancadaria do governante do que trair princípios editoriais e a democracia.

Estamos a pouco mais de seis meses do primeiro turno das eleições. O planejamento dos veículos de comunicação não pode ser apenas de quem vai cobrir quem e o que, quem vai investigar o que, como serão os plantões ou que parcerias devem ser feitas para realizar debates. Se não estiver clara a política interna para evitar ser usada como instrumento de difusão de desinformação, a imprensa será acusada, com toda a razão, de cumplicidade.

Originalmente publicado no UOL

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