
Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL
Flávio Bolsonaro tenta provar ao eleitor que ama o Bolsa Família desde criancinha a fim de não perder votos na reta final da eleição enquanto a campanha de Lula quer mostrar que o senador vai reduzir o programa social.
Em meio às demonstração públicas de afeto, Flávio começou a apagar postagens antigas em que o chamava o Bolsa Família de “Bolsa-Farelo”, como registrou o jornal O Globo em cima de posts que haviam sido resgatados pelo jornal O Estado de S.Paulo e a AP Exata Inteligência.
Por exemplo, em uma publicação de junho de 2013, o senador afirmou que o PT “perpetua a pobreza com o bolsa-farelo, mantendo as pessoas nessa dependência para não perder seus votos”. No mesmo ano, ele também indicou que tem gente que “precisa trabalhar dobrado para manter quem vive de bolsa família”.
O comportamento diante do benefício começou a mudar quando seu pai chegou à Presidência da República. Jair Bolsonaro, ele próprio, era um crítico contumaz até que foi convertido pelos benefícios eleitorais.
Em abril de 2010, por exemplo, o então deputado federal postou no Twitter, hoje X: “O Bolsa-Farelo (família) vai manter esta turma no poder”.
Quando deputado federal, Jair vinculou o recebimento do programa à vagabundagem. “O Bolsa Família é uma mentira, você não consegue uma pessoa no Nordeste para trabalhar na sua casa. Porque, se for trabalhar, perde o Bolsa Família”, afirmou em entrevista à Record News, em 2012.

“O cara tem três, quatro, cinco, dez filhos e é problema do Estado, cara. Ele já vai viver de Bolsa Família, não vai fazer nada. Não produz bem, nem serviço. Não produz nada. Não colabora com o PIB, não faz nada. Fez oito filhos, aqueles oito filhos vão ter creche, escola, depois cota lá na frente. Para ser o que na sociedade? Para não ser nada”, disse em entrevista ao colunista do UOL Carlos Juliano Barros, em 2015.
Após o governo federal anunciar o reajuste de 15% no Bolsa Família (de um mínimo de R$ 600 para R$ 691), a 17 dias do primeiro turno, adversários acusaram Lula. Afinal, o timing é claramente eleitoreiro. Mas a discussão sobre o reajuste (que ocorreu dentro da inflação acumulada no período) em meio às eleições foi usado para tentar atacar um dos mais importantes programas de transferência de renda do mundo.
Dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome apontam que, com a abertura de um negócio próprio, a consolidação de um emprego formal e o consequente aumento da renda, 2.069.776 famílias haviam deixado o Bolsa Família entre janeiro e outubro do ano passado. Desses, 727 mil concluíram o período na regra de proteção, mecanismo que permite que o beneficiário continue recebendo metade do valor do Bolsa Família por até 12 meses, mesmo após superar o limite de R$ 218 mensais per capita e desde que não ultrapasse R$ 706.
O preconceito sobre o Bolsa Família não é um desvio retórico ou uma provocação isolada, mas uma visão de mundo que era compartilhada por pai e filho, segundo a qual a pobreza resulta menos da desigualdade de oportunidades do que da falta de disposição para o trabalho. Nessa lógica, o pobre só merece a atenção do Estado quando deixa de ser tratado como um estorvo e passa a representar um ativo eleitoral.
É por isso que a tentativa de Flávio de apagar as antigas postagens diz tanto sobre sua súbita conversão. O problema não está apenas no que ele dizia sobre o Bolsa Família, mas no que agora precisa fingir que nunca disse. Na família Bolsonaro, o desprezo parece ser hereditário. Já o amor pelos programas sociais depende das pesquisas de intenção de voto.