
Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL
Os R$ 61 milhões alegadamente pagos por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, após os insistentes pedidos de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foram mesmo para a produção de Dark Horse, filme sobre a vida de Jair que conta com o ator Jim Caviezel no papel do golpista? Ou tiveram, total ou parcialmente, outro destino ainda menos nobre? Esses são o tipo de pergunta que apenas a Polícia Federal será capaz de responder.
Já é grave que um senador tenha prometido lealdade eterna a um banqueiro envolvido no maior escândalo financeiro da história do Brasil (“Irmão, estou e estarei contigo sempre”, prometeu ele, em novembro de 2025, quando o Master já era investigado pela PF e um dia antes da prisão de Vorcaro). Mas a história está longe de um desfecho.
O deputado federal Mário Frias (PL-SP) e a produtora responsável pelo filme, a Goup Entertainment, divulgaram nota afirmando que “não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro“ no filme. Se estão falando a verdade, para onde foi o dinheiro?

Reportagem do Intercept Brasil divulgada ontem revelou diálogos entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, em que o filho do presidente pede cascalho grosso ao banqueiro. Em um áudio, é possível ouvir o senador praticamente se humilhando sob a justificativa de que era necessário manter a produção do filme. Pediu R$ 134 milhões e teria recebido parcelas que somam R$ 61 milhões.
O valor repassado é superior ao que custou os dois filmes brasileiros de maior sucesso internacional nos últimos anos. “Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, com Fernanda Torres, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional, custou R$ 45 milhões. E “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, com Wagner Moura, que levou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes, teve orçamento de R$ 28 milhões.
De acordo com apuração do Intercept, ao menos parte do dinheiro foi transferida para os Estados Unidos usando a Entre Investimentos e Participações, que atuava em parceria com empresas de Vorcaro, para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e controlado por aliados do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, autoexilado naquele país.
A PF precisa determinar quem está mentindo, o que está sendo omitido e se todo o dinheiro foi mesmo para a produção do filme. E ela, como eu disse, é a única capaz de responder isso. E talvez seja essa a razão que aliados do senador não exigem que a polícia vá até o fim nas investigações, mas apenas uma CPI do Master — onde deputados e senadores amigos podem vestir o avental de pizzaiolo e manter um fogo bem baixinho, levando em banho-maria, enquanto escolhem o sabor da cobertura. As últimas CPIs no Congresso terminaram assim, servindo meia mussarela, meia calabresa, e o povo sabe disso.