Sakamoto: Lula vai à guerra com fim da ‘taxa das blusinhas’, Desenrola e escala 6×1

Atualizado em 12 de maio de 2026 às 21:30
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), durante Assinatura da MP para zerar imposto federal da Taxa das Blusinhas
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), durante Assinatura da MP para zerar imposto federal da Taxa das Blusinhas – Divulgação/PR

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Quando o governo federal decidiu criar a “taxa das blusinhas” sob a justificativa de proteger a indústria nacional, gerando uma cobrança de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, acabou torpedeando a inclusão pelo consumo — uma das principais promessas de Lula ao longo de suas gestões.

A conta é simples: quem faz compras na Shopee, na Shein, na AliExpress não é rico. E foi uma parcela desse eleitorado que o petista foi perdendo nos últimos anos, insatisfeitos com a sensação de perda do seu poder de compra por culpa da inflação ou do endividamento.

Isso enquanto a classe média alta e alta traz muamba legalizada de até 1000 doletas (via aérea ou marítima) ou 500 (pela via terrestre) quando vão para fora do país. Não é à toa que, nos levantamentos internos do Palácio do Planalto, a medida aparecia como um dos principais pontos negativos da gestão, vista como injusta e explorada pela oposição.

A decisão anunciada hoje, de zerar o imposto federal sobre essas compras a partir de quarta, é correta sob a ótica da população e também politicamente. Não há dúvida que ela é uma correção de rota eleitoral, diante do avanço da candidatura de Flávio Bolsonaro. E o filho 01 vai explorar isso. Mas, para o povão, o que importa é a sensação de que os produtos ficaram mais baratos. Uma “deflação” na importação de roupas e eletrônicos.

O governo tenta recompor a perda eleitoral entre as classes C, D e E com um conjunto de sinalizações que miram diretamente esses grupos. O Desenrola buscou aliviar o superendividamento. A pauta do fim da escala 6×1, ainda em debate, mas que será aprovada, toca numa ferida aberta de quem trabalha no varejo, nos serviços, na agricultura — exatamente o público que Lula precisa reconquistar. Medidas para garantir crédito a motoristas de plataformas, categoria que não morre de amores por Lula, também entram no cálculo.

Esse eleitorado não é ingênuo, ele sabe quando está sendo cortejado de olho no voto. Mas também é pragmático e sabe que o ano de eleição é a hora de arrancar concessões por parte dos políticos e garantir conquistas em termos de bem-estar.

A força de um governo não depende apenas de indicadores econômicos, pois, como disse a saudosa Maria da Conceição Tavares, o povo não come PIB, mas alimentos. Lula conseguiu aumentar o Produto Interno Bruto e a renda média dos trabalhadores e reduzir a taxa de desemprego, mas pouco adianta se isso não vier com a percepção de melhora na qualidade de vida. E, para tanto, o poder de compra é central.

Há um naco grande da população, que não está polarizado entre lulistas e bolsonaristas, e que foi fundamental para eleição de Lula. De comportamento pendular, pode tanto se conectar ao discurso de costumes e comportamentos de Flávio, quanto às promessas de melhor qualidade de vida e conforto econômico de Luiz.

Esse grupo, que foi com Lula, quer ver resultados, e tem pressa porque tem necessidade. A melhora na economia veio junto com o aumento nos preços e das dívidas, inclusive por conta das bets (o maior programa de transferência de pobres para ricos da História). É como se a felicidade do trabalhador pelo salário desaparecesse no momento em que ele paga os boletos e faz suas compras.

Ao revogar a taxa das blusinhas, apostar no Desenrola, encampar o debate da 6×1 e mirar categorias precarizadas, o governo tenta reconstruir a ponte com quem o levou de volta ao Planalto. A guerra pelo eleitor de baixa renda, será vencida (ou perdida) na capacidade de devolver ao trabalhador a sensação de que seu esforço vale a pena. Porque, no fim, o voto desse grupo não cabe inteiro em ideologia: cabe no próprio bolso.

 

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