
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Quando o governo federal decidiu criar a “taxa das blusinhas” sob a justificativa de proteger a indústria nacional, gerando uma cobrança de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, acabou torpedeando a inclusão pelo consumo — uma das principais promessas de Lula ao longo de suas gestões.
A conta é simples: quem faz compras na Shopee, na Shein, na AliExpress não é rico. E foi uma parcela desse eleitorado que o petista foi perdendo nos últimos anos, insatisfeitos com a sensação de perda do seu poder de compra por culpa da inflação ou do endividamento.
Isso enquanto a classe média alta e alta traz muamba legalizada de até 1000 doletas (via aérea ou marítima) ou 500 (pela via terrestre) quando vão para fora do país. Não é à toa que, nos levantamentos internos do Palácio do Planalto, a medida aparecia como um dos principais pontos negativos da gestão, vista como injusta e explorada pela oposição.
A decisão anunciada hoje, de zerar o imposto federal sobre essas compras a partir de quarta, é correta sob a ótica da população e também politicamente. Não há dúvida que ela é uma correção de rota eleitoral, diante do avanço da candidatura de Flávio Bolsonaro. E o filho 01 vai explorar isso. Mas, para o povão, o que importa é a sensação de que os produtos ficaram mais baratos. Uma “deflação” na importação de roupas e eletrônicos.
O governo tenta recompor a perda eleitoral entre as classes C, D e E com um conjunto de sinalizações que miram diretamente esses grupos. O Desenrola buscou aliviar o superendividamento. A pauta do fim da escala 6×1, ainda em debate, mas que será aprovada, toca numa ferida aberta de quem trabalha no varejo, nos serviços, na agricultura — exatamente o público que Lula precisa reconquistar. Medidas para garantir crédito a motoristas de plataformas, categoria que não morre de amores por Lula, também entram no cálculo.
Esse eleitorado não é ingênuo, ele sabe quando está sendo cortejado de olho no voto. Mas também é pragmático e sabe que o ano de eleição é a hora de arrancar concessões por parte dos políticos e garantir conquistas em termos de bem-estar.
O Governo do Brasil zerou os impostos federais para compras internacionais até 50 dólares. O imposto de importação acabou.
O Governo do Brasil está do lado do povo brasileiro.
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— Lula (@LulaOficial) May 12, 2026
A força de um governo não depende apenas de indicadores econômicos, pois, como disse a saudosa Maria da Conceição Tavares, o povo não come PIB, mas alimentos. Lula conseguiu aumentar o Produto Interno Bruto e a renda média dos trabalhadores e reduzir a taxa de desemprego, mas pouco adianta se isso não vier com a percepção de melhora na qualidade de vida. E, para tanto, o poder de compra é central.
Há um naco grande da população, que não está polarizado entre lulistas e bolsonaristas, e que foi fundamental para eleição de Lula. De comportamento pendular, pode tanto se conectar ao discurso de costumes e comportamentos de Flávio, quanto às promessas de melhor qualidade de vida e conforto econômico de Luiz.
Esse grupo, que foi com Lula, quer ver resultados, e tem pressa porque tem necessidade. A melhora na economia veio junto com o aumento nos preços e das dívidas, inclusive por conta das bets (o maior programa de transferência de pobres para ricos da História). É como se a felicidade do trabalhador pelo salário desaparecesse no momento em que ele paga os boletos e faz suas compras.
Ao revogar a taxa das blusinhas, apostar no Desenrola, encampar o debate da 6×1 e mirar categorias precarizadas, o governo tenta reconstruir a ponte com quem o levou de volta ao Planalto. A guerra pelo eleitor de baixa renda, será vencida (ou perdida) na capacidade de devolver ao trabalhador a sensação de que seu esforço vale a pena. Porque, no fim, o voto desse grupo não cabe inteiro em ideologia: cabe no próprio bolso.