
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
O Brasil acordou neste Primeiro de Janeiro embalado por um número: R$ 1,09 bilhão. A Mega da Virada teve alguns ganhadores (desta vez, seis acertaram as seis dezenas) e milhões de perdedores, como acontece todo ano. Por isso, loteria precisa ser encarada como uma brincadeira coletiva, sustentada pela fantasia momentânea de que o acaso pode enganar a soberana estatística.
A chance de ganhar com um jogo simples (um em mais de 50 milhões) é menor que a de um meteoro atinja a cabeça de quem apostou. Mas muitos de nós jogamos na Mega da Virada mesmo assim (e me incluo nessa) pela graça de colocar os sonhos para se exercitar, mesmo que por um curto período de tempo.
O problema começa quando a brincadeira vira promessa na cabeça de quem não aceita que matemática seja uma ciência. Jogo de azar não é investimento, não é plano financeiro, não é estratégia de sobrevivência, não é remuneração. É sorte. Pura e simples. Quem confunde isso costuma pagar caro, como o pessoal que aposta centenas de milhares ou milhões de reais para ganhar uma fração disso em quadras e quinas.
Nesse contexto, as bets vendem ilusões, usando influencer passado no óleo de peroba que jura ser fácil ganhar e abusando de narrativa de meritocracia aplicada ao acaso. E aí mora a armadilha. O jogo passa a ser tratado como renda. O azar, como falha individual. A perda, como culpa do jogador que não soube apostar direito. É nesse ponto que a brincadeira vira tragédia social.
Tem gente apostando o dinheiro da faculdade, da comida, do remédio, do aluguel. Gente tentando cobrir um buraco com outro. Perdendo tudo, se endividando, entrando em espirais de ansiedade e vergonha.
OS NÚMEROS DO SORTEIO DA MEGA DA VIRADA
SAIU pic.twitter.com/MdZyF0Qdx5
— Edu Valenthim (@eduvalenthim) January 1, 2026
As bets proliferam com anúncios agressivos, patrocínios milionários e a promessa de enriquecimento fácil. Não é difícil entender por que elas se multiplicam como praga em solo brasileiro. O negócio é simples: oferecer ao trabalhador a mentira de que pode transformar sua vida pelo jogo. O que não se diz é que a esmagadora maioria perde — e perde muito. Tudo isso alimenta um sistema que drena recursos de quem não tem para engordar quem já está nadando em dinheiro.
Enquanto isso, famílias são destruídas por dívidas acumuladas em apostas perdidas, histórias de violência doméstica ligadas ao vício em jogos se multiplicam e jovens são seduzidos por uma lógica perversa que substitui o trabalho pelo golpe de sorte. As bets não são apenas um entretenimento inofensivo — são uma máquina de moer gente, especialmente em um país onde a educação financeira é precária e a desigualdade, abissal.
O Estado brasileiro demora para proibir anúncios de bets, como proibimos anos atrás os dos cigarros, e para aumentar os impostos contra elas, o jogo segue rolando. A proposta do governo federal aprovada pelo Congresso Nacional no final do ano é apenas um passo em uma maratona.
Passada a euforia da Mega da Virada, vale o lembrete incômodo: a banca sempre ganha. Quem promete o contrário, geralmente está apostando (com ótimas chances de sucesso) na sua grana.
Não se trata de demonizar quem joga, mas de colocar o jogo no lugar certo. Mega, bets, qualquer aposta: entretenimento. O dinheiro miúdo que você aceita perder, que você pode (e provavelmente irá) perder, que não vai fazer falta nenhuma em um jogo feito de forma bissexta. Nada além disso. Quando o discurso do “ganhar fácil” encontra um país desigual, o resultado não é sorte, é exploração.
Em tempo: Desejo um 2026 mais leve para todo mundo. Mas, se isso for impossível, que, pelo menos, as tragédias nos façam rir.