Sakamoto: Messias foi mais ‘terrivelmente evangélico’ que Mendonça em sua sabatina

Atualizado em 30 de abril de 2026 às 10:11
Jorge Messias recebe abraço de Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) durante sabatina na CCJ do Senado. Foto: Gabriela Biló/Folhapress

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Indicado pelo presidente Lula ao cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal, o advogado-geral da União Jorge Messias citou oito vezes a palavra “Deus” e quatro vezes o termo evangélico ou evangélica em seu discurso inicial na contagem de Ana Gabriela Oliveira Lima e Carolina Linhares, da Folha de S.Paulo. Enquanto isso, André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro, citou três vezes “Deus” e evangélico ou evangélica, quatro, segundo as notas taquigráficas do Senado.

Em termos de tempo de dedicação à religião nos discursos, Messias foi mais “terrivelmente evangélico”. A expressão foi usada por Bolsonaro ao prometer a indicação de um ministro com perfil conservador e cristão ao STF. Mendonça, que ajudou Messias em sua campanha ao STF, é pastor presbiteriano. Já o chefe da AGU é diácono da Igreja Batista Cristã de Brasília.

A diferença talvez resida no fato de que Mendonça queria provar ao Senado que, apesar de evangélico, ele tinha um currículo técnico e estava apto ao cargo. E Messias necessitava mostrar que, apesar de ter um currículo técnico e estar apto ao cargo, ele é evangélico.

Para quebrar resistência da ala oposicionista do Senado, Messias fez acenos. Falou em “pacificação”, termo que vem sendo usado pelo bolsonarismo para defesa da anistia aos golpistas condenados, e criticou linchamentos públicos — o que é música para os ouvidos de alguns parlamentares.

Mas deixou claro que é um “servo de Deus”, que sua identidade é evangélica e que, apesar de reforçar que o Estado é laico (tal como havia feito Mendonça em sua vez), afirmou que é possível interpretar a Constituição com fé, não pela fé. Colocou-se pessoalmente contra o aborto, o que significa que a pauta não deve avançar com ele, mantendo apenas os casos previstos hoje (risco de vida para a mãe, estupro e anencefalia fetal). Previstos, mas muitas vezes desrespeitados.

Ao transformar convicções religiosas em credenciais políticas, o debate escorrega perigosamente da Constituição para o púlpito. E, nesse terreno, pouco importa quem mencionou mais vezes “Deus” ou vestiu melhor o figurino religioso. O que está em jogo não é devoção, mas a integridade de um Estado que se diz laico, mas que, na prática, segue sendo testado a cada sabatina.

Porque, quando ministros do Supremo precisam reafirmar crenças pessoais para conquistar votos, talvez o problema não esteja neles, mas no sistema que exige essa demonstração. E fé, vale lembrar, deveria ser ponte entre o indivíduo e o sagrado, não moeda de negociação no balcão da política.

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