
Por Leonardo Sakamoto, via UOL.
Uma nova pesquisa do Datafolha revelou que metade dos brasileiros (50%) prefere a ideia de pagar menos impostos e contratar serviços particulares de saúde e educação. O avanço dessa mentalidade é o sintoma de um truque de ilusionismo perverso: os mais ricos e seus guerreiros ideológicos vêm conseguindo incutir na população a defesa dos interesses da elite, mesmo que isso signifique a destruição da própria qualidade de vida dos mais vulneráveis.
Por trás dessa falácia está o fato de que os principais beneficiados por trocar serviços públicos por menos impostos formam justamente a parcela mais abastada da população, aquela que já não depende de hospitais e escolas do Estado. Ou acham que não precisam, porque a imunização de milhões, pobres e ricos, que nos salvou da covid-19 e nos salva diariamente de um rosário de doenças é obra do SUS.
A armadilha se revela na matemática cruel da vida real, pois a grande maioria simplesmente não conseguiria bancar uma cirurgia cardíaca. Menos do que isso: uma perna quebrada. A ilusão vendida é a de que um plano de saúde privado e barato será a salvação. Contudo, por mais que essas opções de baixo custo possam cobrir algumas consultas rápidas e exames básicos, elas jamais bancariam procedimentos de média e alta complexidade com a mesma retaguarda e competência técnica oferecidas pelo Sistema Único de Saúde.
Isso tudo sem considerar a realidade de que a esmagadora maioria dos trabalhadores não consegue pagar nem sequer a mensalidade desse plano mais barato, mesmo se houvesse a tão sonhada redução nos impostos.
Qualquer pessoa que faça a comparação leviana de que a saúde privada é a solução definitiva não entende como funciona o modelo norte-americano, famoso justamente por não possuir um sistema público de saúde universal como o nosso SUS ou o National Health Service (NHS) inglês. Nos Estados Unidos, o desespero financeiro ditado pelo mercado é tão brutal que é comum notícias de pessoas atropeladas nas ruas que preferiram ir de transporte por aplicativo para um centro médico do que permitir que alguém chamasse uma ambulância, pois sabiam que não seriam capazes de pagar a conta exorbitante de alguns resgates.

É um sistema implacável: ou você contrata um plano ou está empregado em uma empresa que lhe garante o benefício, ou vai ter que trabalhar anos da sua vida apenas para quitar a dívida contraída por uma cirurgia simples.
Esse debate raso ignora de forma conveniente um princípio civilizatório básico: o sistema de impostos serve para garantir a redistribuição de renda, com os mais ricos pagando pelos mais pobres. Sem essa engrenagem fundamental, os trocados que os pobres (principalmente a classe trabalhadora) deixariam de pagar em impostos são absolutamente insuficientes para garantir a existência e o funcionamento do SUS.
Isso aliás, é outra batalha em curso, com os mais ricos e os patrões defendendo o fim do emprego CLT, que sustenta a seguridade social brasileira.
É inegável que as filas intermináveis, a falta crônica de pessoal e a escassez de recursos são absurdos diários que massacram quem precisa de atendimento. Esses gargalos devem, sim, ser enfrentados por gestores públicos decentes e sob forte e constante cobrança da população. Mas isso deve ser feito com base na realidade e na defesa de direitos, sem as mentiras que servem apenas para enriquecer quem lucra com o fim a retirada de recursos do sistema público de saúde.
A pergunta nunca foi “SUS ou saúde privada”. Essa é a pergunta que os interessados na sua ruína querem que você faça, pois os dois podem conviver. A pergunta real é: quem lucra quando você abre mão do seu direito? A resposta nunca é o motorista de aplicativo, a diarista, o entregador, o pequeno comerciante. A resposta é sempre a mesma: quem já tem plano de saúde platinado, escola particular bilíngue para os filhos e uma fortuna blindada em paraísos fiscais.
Defender o desfinanciamento da saúde pública é como um passageiro no Titanic comemorar porque conseguiu economizar no bilhete sem perceber que o desconto veio junto com a informação de que a classe comprada não incluía botes salva-vidas. Quando o barco afundar, os endinheirados já estarão em outro navio. Os demais afundarão junto com a “economia” que fizeram.
Destruir o SUS é ceder à cantilena de que “o Estado é ineficiente, então é melhor cada um se virar”, pulverizando o que sobrou de solidariedade em um país historicamente desigual.
A luta não é para blindar o serviço público das críticas, mas exigir que ele seja o que prometeu ser. Porque quem sugere que jogá-lo fora é a solução nunca vai precisar dele para sobreviver. E é exatamente por isso que insiste tanto para que você acredite que também não precisa.