Sakamoto: “Misantropia” é alarme falso que expõe risco real de manipulação de eleitor

Atualizado em 20 de junho de 2026 às 11:19
Alerta sonoro da Defesa Civil em tela de celular
Mensagem de alerta sonoro exibida na tela de um celular. Foto: Reprodução.

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Milhões de brasileiros foram acordados na madrugada de hoje com um alerta extremo da Defesa Civil Nacional. Na mensagem, apenas a palavra “misantropia”, que significa ódio ao ser humano. Dada a quantidade de relatos de quem já estava em sono profundo e acordou com taquicardia com o alarme, quem fez isso realmente não gosta de gente.

O uso criminoso do sistema, que foi criado para avisar sobre riscos que representem perigo à vida, como tempestades graves ou deslizamentos de terra, está sendo investigado pela Polícia Federal — que analisa uma possível invasão hacker. Mais do que o início da dominação global por uma inteligência artificial como a Skynet, isso abre uma reflexão sobre a safadeza humana. Imagine se tivesse ocorrido em outro momento e com outra finalidade, por exemplo, espalhando desinformação no primeiro ou no segundo turno das eleições.

Uma das principais regras da internet é que um desmentido nunca vai tão longe ou tão rápido quanto uma notícia falsa. Nem todo mundo tem acesso aos mesmos instrumentos de checagem ou recebe informações da parcela da mídia tradicional e alternativa que relata fatos. Desinformação espalhada leva tempo para ser corrigida e demanda uma quantidade hercúlea de energia.

A Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil afirmou que desabilitou a ferramenta de alertas, que o sistema só voltará a funcionar quando todas as condições de segurança forem restabelecidas e que adotará medidas para impedir novos acessos indevidos. Isso é importante, mas demonstra a nossa fragilidade. Listo quatro formas pelas quais uma invasão ao sistema poderia manipular as eleições.

Dificultar que o eleitorado vá votar espalhando pânico

A tática mais eficiente seria usar o sistema para impedir fisicamente as pessoas de votarem, especialmente se o hacker conseguir direcionar as mensagens por região (geolocalização), atingindo os redutos de um candidato específico. Ao emitir alertas de “risco iminente”, de tiroteios ou de ameaças de bomba perto dos maiores colégios eleitorais, você esvazia as ruas e causa pânico. Espalhar avisos falsos sobre rompimento de barragens, tornados, enchentes severas ou acidentes químicos faz com que a população fique em casa. Dizer erroneamente que as eleições foram suspensas naquela região devido a falhas no sistema muda o resultado de uma eleição.

Disseminação de caos logístico

Outra variação na mesma linha é que um ataque pode ser desenhado para quebrar a organização das eleições direcionando eleitores para zonas eleitorais erradas ou concentrando falsamente milhares de pessoas em um único local, criando filas quilométricas, confusão e, consequentemente, desistências pelo cansaço. Falsas ordens de evacuação em zonas eleitorais centrais podem causar engarrafamentos, travando o transporte público e impedindo que as pessoas cheguem aos seus locais de votação.

Divulgação de desinformação em massa

No dia da eleição, o tempo é o recurso mais escasso. Se uma mentira for espalhada em massa no meio da tarde, não haverá tempo hábil para a imprensa e os tribunais eleitorais desmentirem o fato antes do fechamento das urnas. Por exemplo, um alerta disparado dizendo que um candidato acaba de ser preso pela Polícia Federal ou que outro teve sua candidatura cassada e os votos serão anulados pode ser fatal. Espalhar que o horário de votação mudou ou que é necessário um documento específico que a maioria não tem em mãos também.

Muita gente acreditou, por exemplo, que o hoje ministro Guilherme Boulos tinha recebido apoio de facções criminosas após o governador Tarcísio de Freitas afirmar, no dia do segundo turno municipal em 2024, que havia uma investigação em curso sobre isso, apesar de não apresentar provas. Em outra fake da qual ele foi vítima na mesma eleição, a de que havia sido internado por uso abusivo de cocaína, espalhada pelo seu adversário Pablo Marçal através de um laudo falso dois dias antes do primeiro turno, houve mais tempo para o desmentido, mas ainda assim provocou estragos. Imagine se isso ocorresse pelo sistema de disparos.

Ataque à confiança nas eleições

O dano a longo prazo mais grave é a destruição da confiança pública no processo democrático, na mesma linha da tentativa de minar a credibilidade das urnas eletrônicas. Uma mensagem simples enviada a todos os celulares do país dizendo que “o sistema de contagem de votos foi comprometido por hackers e a eleição está fraudada” é o suficiente para criar uma crise institucional. Mesmo que as urnas eletrônicas sejam completamente seguras e isoladas da internet, usando rede própria, a dúvida da população de que o sistema é vulnerável já terá sido plantada. Isso fornece o pretexto perfeito para que candidatos derrotados não aceitem o resultado, inflamando protestos e criando instabilidade política prolongada.

Em suma, um ataque a um sistema de alertas de emergência nacional no dia de uma eleição representa um cenário gravíssimo de manipulação do eleitorado. Como as mensagens de emergência não raro ignoram o modo silencioso e aparecem sobrepondo qualquer aplicativo, o alcance é de praticamente 100% da população adulta em questão de segundos, tornando essa uma arma de desestabilização quase sem paralelos.

Que o Tribunal Superior Eleitoral e os órgãos que monitoram sistemas como esse trabalhem sempre com a pior hipótese. Porque, como já vimos, ela tende a ser a mais realista.

Diario do Centro do Mundo
O Diário do Centro do Mundo (DCM) é um portal brasileiro de jornalismo digital fundado em 2013. O site publica notícias e análises sobre política, economia, cultura, mídia, comportamente -- tudo o que é relevante, no Brasil e no exterior