Sakamoto: Musk leva surra bilionária das urnas com chulapada democrata nos EUA

Atualizado em 4 de novembro de 2026 às 11:08
Elon Musk e Donald Trump. Foto: Nathan Howard/Reuters

Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL

Elon Musk acordou hoje com uma constatação que deve ter doído mais do que qualquer tombo das ações da Tesla: dinheiro compra muita coisa, mas não compra tudo. Principalmente no Texas.

Os democratas impuseram uma derrota histórica a Donald Trump e ao Partido Republicano nas eleições de meio de mandato, que terminou ontem. Num resultado lido como reação à incapacidade do presidente de lidar com a inflação e a insatisfação diante com a guerra no Irã, eles retomaram com folga o controle do Senado e da Câmara. E, entre os escombros, está um derrotado que nem aparecia na cédula: o homem mais rico do mundo.

Musk correu para o seu X e escreveu, logo cedo, que, pelo jeito, “meus lasers espaciais que interferem em eleições não funcionaram desta vez”. Com emoji de ombros encolhidos e tudo. Se “lasers” é uma nova forma de falar de cascalho grosso, tenha certeza que sim.

E o laser saiu caro. Musk deu nestas eleições mais dinheiro do que qualquer doador já gastou num único ciclo eleitoral, excetuando apenas os candidatos ricos que bancam a si mesmos: cerca de US$ 474 milhões, algo em torno de R$ 2,6 bilhões. E a conta é por baixo. Segundo o New York Times, o valor quase certamente está subestimado, porque Musk também fez doações por meio de “dark money”. Lá, isso tem nome chique e, acredite, é legal. Aqui, o parente mais próximo atende pelo apelido de “caixa 2”.

A maior fatia foi para o Texas, onde o bilionário tentou impedir o democrata de vencer. Foram mais de US$ 200 milhões para eleger Ken Paxton, o candidato de Trump. Algo na casa de R$ 1 bilhão para derrotar James Talarico. Parte disso foi para um comitê pró-Paxton que, segundo a CNN, financiou ligações automáticas feitas com inteligência artificial atacando Talarico. Nada mais coerente: o dono de uma empresa de IA usando robôs para tentar convencer gente de carne e osso.

O esforço era impávido, mas brochou. Talarico venceu com 55% dos votos e se tornou o primeiro democrata a conquistar uma cadeira no Senado pelo estado desde 1988. Trinta e oito anos de jejum encerrados por um seminarista presbiteriano de 37 anos, que repetia em comício que a enxurrada de dinheiro mostrava a necessidade de pôr limites aos poderosos, com o bordão de que “O Texas não está à venda”. Estava certo. Ele comparou sua campanha à história bíblica de Davi contra Golias, colocando Musk, Trump e o establishment de Washington no papel do gigante.

No Michigan, o bilionário também gastou. O America PAC, abastecido quase integralmente por Musk, gastou milhões na disputa contra Abdul El-Sayed e a favor do republicano Mike Rogers. Flopou, de novo. El-Sayed derrotou Rogers e se tornou o primeiro senador muçulmano do país.

Mas Musk não perdeu o senso de humor – ou de negócios. Em outra postagem, disse que datacenters no espaço pareciam bem atraentes neste momento. A piada tem endereço: na reta final da campanha, Musk doou US$ 5 milhões ao governador Greg Abbott, em plena batalha sobre datacenters no Texas. O estado é um dos grandes polos de construção planejada dessas estruturas, e a democrata Gina Hinojosa fez campanha pedindo uma pausa em novos projetos até que houvesse regras mais duras. Resultado: Hinojosa derrubou Abbott e se tornou a primeira governadora latina do Texas.

Eleitores votam nos EUA. Foto: Jim Vondruska/Getty Images

O mais irônico é que o dinheiro de Musk pode ter ajudado justamente a quem ele queria derrotar. Análise da CNBC aponta que os gastos do bilionário podem ter virado um passivo, já que eleitores ouvidos na boca de urna manifestaram preocupação com corrupção e com o peso crescente dos bilionários. Em pesquisa da emissora, 56% disseram que os datacenters pesaram de forma decisiva ou importante no voto, com democratas dando mais peso que republicanos ao assunto.

Talarico ligou diretamente o custo de vida à corrupção de bilionários que irrigam a política com rios de dinheiro. Musk entrou na campanha como financiador e saiu como cabo eleitoral do adversário.

E a ressaca promete. Democratas já disseram que a maioria na Câmara vai permitir investigar os cortes do Doge, o tal Departamento de Eficiência Governamental que foi gerido por Musk no início da gestão Trump, o suposto download de dados federais pelo bilionário para alimentar sua IA e os interesses empresariais de Musk, incluindo os contratos da SpaceX com o governo.

O comitê de Finanças da Câmara já havia pedido apuração sobre suposto roubo de dados da Previdência Social ligado ao Doge. E há o capítulo dos contratos de pai para filho: segundo o Democracy Defenders Fund, nos 17 meses após a saída de Musk do Doge, suas empresas receberam pelo menos US$ 10 bilhões em novos contratos e subsídios federais. Trump se adiantou e disse que consideraria perdões preventivos a Musk e a assessores caso os democratas assumissem a Câmara. Quando o presidente oferece perdão antes mesmo da investigação começar, é porque alguém já sabe o que vai ser encontrado.

Que as Big Techs nunca foram apenas as donas da praça pública onde o debate eleitoral acontece, qualquer marmota já sabe. Controlam os algoritmos que decidem o que você vê, a inteligência artificial que responde às suas perguntas e, agora, despejam bilhões para escolher quem vai regulá-las. É como deixar o réu indicar o juiz.

O Brasil sabe do que se trata. A Meta admitiu “falhas técnicas pontuais” que afetaram publicações da campanha de Lula, mas negou interferir nas eleições de 2026, depois que a campanha do presidente a acusou de agir em favor de seu adversário. A IA da empresa permitia usuários produzirem material de campanha da oposição, mas não o do petista. O simples fato de uma empresa estrangeira ter de explicar à Justiça Eleitoral por que a conta de um candidato sumiu do ar mostra o tamanho do problema: nunca tão poucos tiveram tanto poder sobre o que tantos sabem na véspera de votar.

A chulapada desta terça não resolve isso. Os lasers voltarão em 2028, recalibrados e mais caros. Mas fica a lição, que vale para Austin, Detroit e São Paulo: democracia não é um produto no carrinho de compras de um trilionário. Nem todo mundo está à venda. Só não convém pagar para ver de novo.

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