
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Há exagero na avaliação do impacto da ação militar na Venezuela sobre a eleição brasileira. Mais do que Donald Trump e Nicolás Maduro, serão o arroz e o feijão que continuarão determinando o resultado de outubro de 2026 — reeleição de Lula ou vitória da oposição.
Faz parte do trabalho de analistas políticos tentar entender todos os desdobramentos possíveis de um fato e conectá-los à vida cotidiana de sua audiência. E, sob todos os aspectos, o primeiro bombardeio norte-americano à América do Sul em 200 anos pode, sim, ter consequências preocupantes para nós. Mas analistas também estão em bolhas, vendo a realidade sob a lupa do seu grupo social.
É óbvio que qualquer marmota com problemas de cognição sabe — e isso muito antes da lambança do Tio Sam em Caracas — que Washington seguirá usando as plataformas digitais de seus sócios bilionários para tentar influenciar eleições em favor de candidatos alinhados aos seus interesses. Trump adoraria ver uma marionete eleita por aqui.
Mas, ao contrário do que prega a extrema-direita mais estridente, as relações passadas do governo Lula com o chavismo tendem a excitar apenas o bolsonarismo-raiz e a direita mais engajada — assim como, por reação, mobilizar lulistas e parte da esquerda militante. Pesquisas da Quaest e do Datafolha e estudos conduzidos por Felipe Nunes e Pablo Ortellado mostram que esses grupos mais radicalizados são minoria entre os eleitores, embora pareçam maiores por serem mais barulhentos.
Não é a primeira eleição em que a Venezuela entra na pauta. E, como nas anteriores, o tema tende a sucumbir diante do imperativo da realidade. A percepção da qualidade de vida continua sendo, na minha avaliação, o principal motor do voto. É aí que entram o custo de vida (a capacidade das famílias de comprar bens e serviços), a perspectiva de ascensão ou descenso social e, eventualmente, temas como segurança pública.
A menos que ocorra uma guerra civil sangrenta na Venezuela, com milhões de refugiados espalhados pelo subcontinente e tropas norte-americanas transformando o país em um atoleiro no nível do Iraque, o cenário não deve mudar a ponto de influenciar decisivamente a eleição brasileira. Ao que tudo indica (e como alertei desde sábado), o chavismo não caiu. O que está em curso é uma acomodação do governo sem Maduro, passando a atender interesses econômicos e geopolíticos de Washington em nome da própria sobrevivência. Culpa de uma estrutura de poder dominada pelos militares em todas as camadas da vida cotidiana.
É difícil convencer quem está preso em bolhas algorítmicas ou viciado em grupos de WhatsApp, que são verdadeiras salas de espelhos, de que o Brasil vai muito além das prioridades discursivas do seu próprio grupo. Mas essa é a realidade. Pesquisas de opinião já estão indo às ruas para medir se o brasileiro se preocupa ou não com a guerra, se gosta ou não do regime venezuelano, se vê os EUA como vilões ou heróis. Análises serão feitas em cima dessas fotografias. Mas, no fim do dia, isso não decidirá a eleição.
Trump, aliás, provou ser um eficiente anti-cabo eleitoral, graças ao seu comportamento agressivo e intervencionista. Os liberais canadenses têm motivos de sobra para agradecer: sua pressão ajudou a virar o jogo e tirou da vitória certa um candidato conservador mais alinhado aos interesses dos Estados Unidos. Após o tarifaço, Trump também contribuiu para dar um gás na popularidade de Lula e piorar a do clã Bolsonaro.
Já Nicolás Maduro tampouco desperta respeito fora dos círculos que já estavam engajados, ainda mais agora, como um tirano preso, usando moletom em uma cadeia de Nova York. Traído por seus próprios aliados, que entregaram o anel de Maduro para não perderem os dedos do poder.
Eventuais ganhos dos ataques da direita contra a esquerda por causa de Maduro devem ser compensados pelos ataques da esquerda à direita por causa de Trump.
O cidadão comum vê com espanto e preocupação as notícias do bombardeio, mas elas têm efeito limitado. A vida prática fala mais alto.
Nesse sentido, o governo Lula teve uma boa notícia no fim do ano. Até novembro, o arroz acumulava queda de 25% e o feijão preto, de 33%, em 2025. Enquanto a inflação geral rondava os 4%, a alimentação em domicílio subia cerca de 1,3%. Isso pesa mais para o eleitor do que o desemprego em mínima histórica ou a Bolsa em disparada.

A força econômica de um governo não depende apenas de indicadores macroeconômicos. Como lembrava Maria da Conceição Tavares, o povo não come PIB — quem se alimenta dele são os farialimers. O que importa é a tradução das planilhas para a vida real.
Lula vem conseguindo aumentar a renda média dos trabalhadores — a isenção do Imposto de Renda é parte disso — e reduzir o desemprego. Mas pouco adianta se isso não vier acompanhado da percepção concreta de melhora na qualidade de vida. Um PIB grande é vistoso, mas é preciso perguntar a quem ele traz prazer. E, nesse cálculo, o poder de compra do povão é central, especialmente no que diz respeito aos alimentos. O preço do arroz e do feijão subiu de forma consistente em 2024. A queda em 2025 ajuda a aliviar o mau humor deixado pelo ano anterior.
A eleição não será decidida nas bolhas histéricas das redes sociais, mas no corredor do supermercado e no extrato bancário no fim do mês. Venezuela rende debate, engajamento e manchete, mas, a menos que aquilo descambe para um rebosteio generalizado, vai pesar mais a experiência concreta: do que cabe no carrinho, do que sobra após pagar as contas e da sensação — ainda que difusa — de que a vida anda para frente ou para trás.
Em 2026, não será o barulho das bombas nem o discurso estridente em defesa de Trump ou Maduro que pesará mais na urna, mas a resposta silenciosa à pergunta básica que os eleitores fazem a si mesmos no final de cada mês: deu ou não deu para viver melhor?