Sakamoto: O Congresso dorme mal, e os culpados se chamam Vorcaro e Dino

Atualizado em 8 de fevereiro de 2026 às 23:25
O ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino. Foto: Evaristo Sá/AFP

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Lula fatiou uma torta de climão, na festa de aniversário do PT ontem, ao reclamar que o partido chancelou o “sequestro” do orçamento do governo federal no valor de R$ 60 bilhões para emendas parlamentares.

Isso lembra que o Congresso Nacional não está emparedado por um, mas dois escândalos de proporções apocalípticas. De um lado, investigações que miram o coração financeiro de esquemas que tungaram bilhões de investidores e de fundos de pensão (como as apurações que envolvem o Banco Master, facções criminosas e suas conexões); do outro, o escrutínio sobre o desvio das bilionárias emendas parlamentares, o oxigênio que mantém vivo o fisiologismo.

Para quem olha de fora, pode parecer que qualquer visita da PF é motivo de pânico igualitário. Mas, na lógica de sobrevivência do Planalto Central, há nuances entre os medos de ambas. E uma delação de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o voto de Flavio Dino, relator dos desvios de emendas parlamentares no STF, têm pesos diferentes a depender do envolvido.

A apuração sobre o Master é ruidosa, barulhenta, com cifras bilionárias, personagens vorcarescos e um enredo que mistura mercado financeiro, criptomoedas, PCC e relações perigosamente promíscuas com o poder político, de senadores e deputados, a governadores, ministros, magistrados, sem falar da Faria Lima.

Já a investigação sobre o desvio de emendas parlamentares (especialmente as que operam nas sombras, sem transparência, sem autoria clara e sem rastreabilidade) não aponta apenas para bancos, empresários e operadores, mas para o modo como parte significativa do sistema político decidiu funcionar. Parte delas indo para garantir releeição, parte para enriquecer os envolvidos.

O escândalo do Master expõe escolhas e falhas no sistema financeiro e de controle. E o escândalo das emendas expõe a transformação do orçamento da União em instrumento privado de poder, moeda de troca eleitoral e mecanismo de captura do Estado. Não são desvios laterais, mas o Estado sendo usado como caixa eletrônico.

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Foto: Reprodução

A investigação tipo Master gera o pânico imediato, o medo da humilhação, da perda de bens e da prisão. É o pesadelo pessoal. Já a investigação tipo emendas gera o pânico existencial e coletivo. Sem o controle do orçamento, a classe política perde sua moeda de troca com o Executivo e sua alavanca com o eleitorado.

No caso Master, muitos políticos torcem para que “se apure tudo”, desde que a régua pare antes de chegar neles ou de seus sócios. No caso das emendas, pressionam e ameaçam Flávio Dino, porque, se desenrolar todo o novelo de lã, não sobra muita gente ilesa. A começar pelos caciques.

As investigações ameaçam arranjos. Um pacto silencioso entre políticos de diferentes partidos, ideologias e discursos públicos, unidos não por um projeto de país, mas pela manutenção de um sistema que privatiza o lucro e socializa o prejuízo, de um lado, e distribui recursos públicos sem critérios republicanos, do outro.

Se tiverem que escolher, muitas excelências preferem correr o risco de um processo criminal longo (que prescreve, que se anula, que se recorre em liberdade) do que ver a fonte secar. Porque, no Brasil, um político processado ainda se elege. Mas um político sem dinheiro para irrigar seus currais eleitorais vira apenas um cidadão comum na fila do aeroporto. Ou da rodoviária. E, para essa gente, não há pesadelo maior do que ser tratado como um de nós.

No fundo, a pergunta não é qual investigação é mais grave. As duas são. A pergunta é qual delas ameaça desmontar o condomínio de interesses que se formou no Brasil.

No fim das contas, a disputa não é sobre justiça, é sobre qual torneira o Estado vai fechar primeiro. E nós, pagadores de impostos, continuamos assistindo a essa briga de foice no escuro, torcendo apenas para que sobre algum dinheiro para a saúde e a educação quando as luzes se acenderem.