
Por Leonardo Sakamoto no Uol
Não há dúvidas de que a produção de vídeos, imagens e áudios com inteligência artificial será um dos protagonistas da desinformação na campanha eleitoral de outubro. Muita gente vai comprar vídeos com Lula batendo em doguinhos ou de Flávio Bolsonaro torturando gatinhos como se fossem verdade.
Mas, como já alertei aqui em janeiro, mais do que a inteligência artificial, o problema será a safadeza humana. Tocada com ajuda de perfis de variedades com milhões de seguidores, de donos escondidos em um quase anonimato, prontos para serem alugados para difamar uns e elogiar outros.
O caso entrou no radar da Polícia Federal, que abriu um inquérito no começo do ano para investigar a contratação de influenciadores que atacaram o Banco Central a fim de beneficiar Daniel Vorcaro, então proprietário do Banco Master.
Agora, isso também entrou no radar do Tribunal Superior Eleitoral, que se prepara para julgar, durante as eleições, ações contra esse tipo de perfil e seus contratadores — já usados como instrumento de campanha.
Magistrados e advogados do direito eleitoral esperam uma evolução dos disparos em massa pagos por empresários-amigos, que ficaram famosos na campanha de Jair Bolsonaro, em 2018. A diferença é que a artilharia vem disfarçada em perfis bancados por terceiros, mas a manipulação com caixa dois segue a mesma.
Investigações da imprensa apontaram, no final do ano passado, influenciadores com milhões de seguidores pagos com milhões de reais para atacar instituições, servidores públicos e jornalistas envolvidos nas apurações sobre as falcatruas de Daniel Vorcaro e associados, o chamado “Gabinete do Ódio do Master”.

Não se trata de investigar opinião. Trata-se de investigar milícia paga para atrapalhar a punição de criminosos.
A ideia é tão sórdida quanto eficiente: em vez de usar influenciadores de política e economia, o que levantaria suspeitas, contratam-se nomes do entretenimento. Entre posts banais, entram ataques a um político e afagos a outro. Veneno diluído em entretenimento. No caso do Master, isso ajudou a plantar dúvida sobre as investigações na população, com mais capilaridade e alcance.
Há indícios de que políticos conhecidos se beneficiaram da contratação desses perfis, inflando artificialmente o alcance de seus conteúdos. Criou-se a ilusão de relevância, comprada, não conquistada.
A responsabilização de quem recebeu para difamar pode ajudar a reduzir o lamaçal de outubro.
A PF também se prepara para agir e coibir esse tipo de estrutura durante as eleições. E tem material que conecta interesses econômicos do Master a políticos e suas ações eleitorais.
O “Gabinete do Ódio”, que ganhou fama no governo Jair Bolsonaro dentro do Palácio do Planalto, virou modelo. Um método considerado eficaz até que alguém seja descoberto.
Pagar pessoas famosas para atacar outras não é novidade. A novidade é a engrenagem centralizada: agências que coordenam perfis para espalhar a mesma mensagem, escondida entre conteúdos banais. Esse tipo de operação só funciona enquanto permanece invisível. Quando a cortina cai, a indignação vira prova e a prova desmonta o personagem.
O verdadeiro pavor de quem pretende manipular pelo meio digital a eleição de outubro não é o adversário. É deixar rastro. Contratos, transferências e mensagens saindo das sombras e ganhando a luz no noticiário.
E, para quem executa o serviço, o medo é ainda mais simples: perder o negócio. Porque, uma vez expostos, não há meme que salve nem engajamento que apague. A esperteza vira evidência, a estratégia vira crime e o anonimato desaparece.
No fim, o medo mesmo não é moral, mas financeiro. Não é vergonha de espalhar ódio, é pânico de ver o dinheiro secar. Porque, quando a PF bate à porta, a galinha dos ovos de ouro para de ciscar clique e começa a botar prejuízo.