
Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL
Abre-alas que a comissão de frente vem aí, vestida de ponto eletrônico, catraca e marmita fria. No carro abre-alas, um relógio gigante marca seis dias de batente para um de descanso, girando como se o tempo fosse propriedade privada. É a velha escala 6×1 atravessando a avenida com a pompa de quem se acha inevitável.
Mas ouçam o surdo. Ele não marca o compasso do “sempre foi assim e assim sempre será”, marca o ritmo da mudança, essa sim, inevitável.
Lá vêm os críticos no primeiro carro alegórico, fantasiados de profetas do apocalipse econômico. Trazem planilhas em chamas, gráficos despencando, a inflação sambando fora do controle. Gritam que, se o trabalhador tiver dois dias de descanso por semana, o PIB desmaia, a produtividade entra em coma, o mundo acaba numa quarta-feira qualquer.
É curioso como o mundo só ameaça acabar quando o pobre ameaça descansar.
A ala das baianas gira, rodando saias que estampam direitos sociais. Cada volta é um 13º, cada giro é uma férias remuneradas, cada passo é a lembrança de que nada disso destruiu o capitalismo, que segue forte e pimpão. Quando disseram que limitar jornada a 44 horas semanais seria o fim da economia, ela continuou. Quando criaram o descanso semanal remunerado, o sol nasceu no dia seguinte. O mercado abriu às nove.
No segundo carro, surge a alegoria do burnout, um monstro de olhos vermelhos feito de notificações de aplicativo, metas inatingíveis e mensagens fora do horário. Ele cospe fumaça, exausto, simbolizando a epidemia silenciosa que corrói trabalhadores que vivem para trabalhar, e não o contrário.

A bateria acelera. É o coração da classe trabalhadora, que pulsa seis dias seguidos e, no sétimo, mal consegue viver, controlado na base do captopril. O intérprete canta que dois dias de descanso não são luxo escandinavo, são civilização mínima. Não se trata de trabalhar menos para produzir menos, mas de trabalhar melhor para viver melhor.
Sobe o coro bradando que a economia não é um deus a ser alimentado com horas humanas queimadas em sacrifício, mas existe para organizar a produção de riqueza que permita às pessoas existirem com dignidade. A bateria para, uma voz de mulher negra se levanta e grita: Qualidade de vida não pode ser efeito colateral do desenvolvimento, mas sua razão de ser.
Vejam a ala das crianças, correndo pela avenida. Elas carregam mochilas leves e cartazes dizendo “domingo com o pai”, “sábado com a mãe”. Dois dias de descanso significam tempo para estudar, amar, cuidar da saúde, consumir cultura, circular renda. Descanso também movimenta a economia, restaurantes cheios, parques ocupados, cinema com fila. O trabalhador que respira também compra, cria, convive.
No último carro alegórico, uma enorme ampulheta se parte. A areia deixa de cair apenas para o lado do lucro imediato e começa a desenhar outra paisagem: menos acidentes, menos adoecimento, mais produtividade sustentável. Não é utopia. É planejamento com humanidade.
Enquanto a escola cruza a linha final, os críticos ainda anunciam o fim do mundo, entregando porcentagens de queda do crescimento. Mas a sirene não toca, o céu não desaba, a Bolsa não vira pó. O que cai é apenas o mito de que a exaustão é condição para a existência de um país.
A apoteose chega com um refrão simples:
Se a economia gira e não faz o povo sorrir
Desfila fora do enredo, não sabe onde quer ir
Pois riqueza de verdade é tempo pra viver
É ter saúde, sonho e amor pra florescer