Sakamoto: Papudinha vira QG eleitoral e implode farsa da ‘tortura’ de Bolsonaro

Atualizado em 31 de janeiro de 2026 às 14:23
O ex-presidente Jair Bolsonaro em prisão domiciliar no dia em que começa o seu julgamento no STF

Por Leonardo Sakamoto

Como era de se esperar, mesmo presidiário, Jair Bolsonaro continuou dando as cartas da extrema direita fazendo com que sua cela na Papudinha se tornasse local de peregrinação de políticos em busca de apoio e benção eleitoral.

Como os seus aliados, familiares e seguidores ainda se esgoelam em gritar que ele é vítima de tortura por parte do Estado brasileiro, o caso deveria ser documentado pelas Nações Unidas e a Organização dos Estados Americanos. Pois este é o primeiro em que a vítima, condenada a 27 anos e três meses por tentar um golpe de Estado, conta com uma cela de 65 metros quadrados, com banheiro, cozinha, quarto e área particular ao ar livre, cinco refeições por dia, atendimento médico a qualquer momento, além de poder interagir com outros presos e receber uma profusão de visitas políticas, e ainda usa o presídio como central de articulação eleitoral.

Vale lembrar que Bolsonaro está preso exatamente porque, quatro anos atrás, tentou melar o resultado das eleições usando as Forças Armadas.

Com exceção de pedidos como o de Valdemar da Costa Neto, presidente do seu partido, o PL, e de envolvidos diretamente na trama golpista, o “torturador”, ministro Alexandre de Moraes, do STF, já autorizou um rosário de deputados e senadores a visitar o homem.

Da Papudinha, o ex-presidente costurou a obediência do governador Tarcísio de Freitas, que ouviu do próprio que, na falta de Jair, ele deverá trabalhará por Flávio e não por si na disputa pelo Planalto. A contragosto e por enquanto, claro.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas

Jair também planeja atender pessoas que são importantes na construção da campanha de seu primogênito. Um exemplo foi a autorização dada para a visita do ex-secretário especial de Assuntos Fundiários de seu governo, Nabhan Garcia, liderança ruralista que pode aproximar Flávio do dinheiro e da força de setores do agronegócio. Caso estivesse em prisão domiciliar, como pede sua defesa, alegando questões de saúde, o fluxo de pedidos para a romaria seria ainda maior.

Tudo isso é constrangedor para quem insiste na fábula da tortura: a Papudinha não virou calabouço, virou quartel-general. Não é masmorra, é escritório político com grade na porta. Bolsonaro não cumpre pena isolado do mundo, mas administra seu capital eleitoral de dentro da cadeia, recebe aliados, dá ordens, define candidaturas e mantém a máquina funcionando. Mesmo com os direitos políticos cassados.

A cela mais confortável que a da carceragem da PF no Distrito Federal, o vaivém de parlamentares e o uso do presídio como palanque desmontam qualquer discurso humanitário de ocasião. Se há algo que pode ser violado ali, não é o corpo e a dignidade do condenado, mas o bom senso. E, sobretudo, a inteligência de quem ainda tenta vender como martírio aquilo que, na prática, se parece muito mais com privilégio.

Publicado originalmente no UOL