Sakamoto: Para Eduardo Bolsonaro, sua situação é pior do que 710 mil mortes por covid

Atualizado em 29 de agosto de 2025 às 11:33
Cemitério com vítimas da Covid-19 em Manaus, no fim de 2020 – Foto: Reuters

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

O deputado federal Eduardo Bolsonaro afirmou que a sua situação, autoexilado nos Estados Unidos para fugir de ser punido por conspirar contra o Brasil, é mais grave do que a de mais de 710 mil mortos por covid-19.

É difícil concordar com isso até porque, ao que tudo indica, ele está vivo e bem no Texas, ao contrário de muitos de nós, que perderam parentes e amigos durante a pandemia. Isso sem contar que ele está nos Estados Unidos fazendo lobby junto ao governo Donald Trump para que imponha sanções econômicas e institucionais contra o nosso país, pressionando o STF e o Congresso a livrarem a cara do seu pai, Jair Bolsonaro.

E considerando que recebeu mais de R$ 2 milhões do ex-presidente para poder sobreviver enquanto isso, fome não está passando.

A declaração está em um ofício que encaminhou ao presidente da Câmara Hugo Motta, nesta quinta (28), pedindo para poder exercer seu mandato à distância.

“A Câmara dos Deputados já criou precedentes claros para a participação remota de parlamentares durante a pandemia de covid-19, preservando a continuidade dos trabalhos em circunstâncias excepcionais. Contudo, as condições atuais são muito mais graves do que as vividas naquele período: o risco de um parlamentar brasileiro ser alvo de perseguição política hoje é incomparavelmente maior do que o risco de adoecer gravemente durante a pandemia”, afirmou.

“Não se pode admitir que o que foi assegurado em tempos de crise sanitária deixe de sê-lo em um momento de crise institucional ainda mais profunda”, conclui sobre o tema.

A comparação entre os contextos da pandemia de covid-19 e do julgamento da tentativa de golpe de Estado ocorrida no Brasil entre 2022 e 2023 é, no mínimo, grotesca, insensível e cínica.

Primeiro, porque é mentira que o país viva um período de exceção em que parlamentares são perseguidos por exercerem seu mandato dentro das quatro linhas da Constituição. Isso acontecia durante a última ditadura civil-militar, do qua a família do deputado é fã. Deputados e senadores são investigados e eventualmente punidos hoje por atentarem contra a democracia, perseguirem outras pessoas armados nas ruas em vésperas de eleição, invadir o Conselho Nacional de Justiça com hackers ou desviarem dinheiro dos cofres públicos.

Segundo: o Brasil tem a sétima população mundial, mas foi o segundo em número de óbitos por covid-19, com mais de 710 mil. Essa discrepância não é obra da mãe natureza, mas resultado de uma política negacionista tomada pelo exatamente pelo governo Jair Bolsonaro e aliados, que incentivaram a livre contaminação. Crimes foram cometidos contra a saúde pública entre 2020 e 2021 e seguem praticamente impunes.

O ex-presidente Jair Bolsonaro – Foto: Reprodução

A CPI da Covid, instalada no Senado Federal em 2021, teve 67 sessões, 215 quebras de sigilo, 1.582 requerimentos, terminando com o pedido de indiciamento de 78 pessoas, entre eles o ex-presidente Bolsonaro por “expor” deliberadamente a população a risco concreto de infecção em massa”. Ela pediu o seu indiciamento por charlatanismo, prevaricação, infração de medida sanitária preventiva, emprego irregular de verba pública, epidemia com resultado de morte.

Bolsonaro não teve pressa alguma para comprar vacinas. Pelo contrário, ignorou durante meses as insistentes ofertas de imunizantes da Pfizer, que poderiam ter chegado ainda em 2020 e salvado a vida de milhares de brasileiros. Chegou a dar um chega-pra-lá no então ministro da Saúde Eduardo Pazuello por declarar que compraria doses da CoronaVac.

Em um dos lances mais sinistros, o presidente e o ex-ministro Marcelo Queiroga colocaram milhões de crianças em risco no final de 2021. Criando uma falsa guerra pela “liberdade” de não se vacinar, Bolsonaro postergou o quanto pôde o início da imunização a partir dos cinco anos de idade, impondo inúteis consultas públicas, ameaçando a equipe da Anvisa, espalhando desinformação, atrasando a compra de doses. Ele ainda diria que a vacina matava crianças e adolescentes e causava HIV.

Manaus ficou sem oxigênio nos hospitais em janeiro de 2021 e pacientes de covid-19 morreram sufocados. Suas famílias passaram a comprar cilindros individuais para tentar salvá-los, muitas vezes sem sucesso. O Palácio do Planalto, que, em uma emergência nacional, deveria monitorar de perto os insumos, não demonstrou pressa. Pelo contrário, enquanto os manauaras pediam oxigênio, o governo enviou cloroquina e ivermectina – remédios ineficazes para a doença.

No intuito de não atrapalhar sua reeleição, Bolsonaro forçou a população a ir às ruas, contando mentiras, menosprezando o vírus e a morte. O presidente, que hoje chora diante da prisão domiciliar, disse “chega de frescura, de mimimi, vão ficar chorando até quando” aos brasileiros que perderam entes queridos.

Ironicamente, acabou atrasando a retomada da economia, porque prolongou, com seu negacionismo, o impacto da pandemia. Se ele tivesse agido com empatia e aplicado políticas de combate à pandemia, Jair poderia ter ganho a eleição.

Vencemos o coronavírus apesar das ações letais do ex-presidente. Sim, em nossa maior guerra, aquela que deixou mais de 710 mil mortos em nosso território, tivemos o azar de ter como comandante um ex-capitão que se aliou ao nosso pior inimigo.

Seu papel na covid-19 foi a primeira grande traição do clã Bolsonaro ao Brasil. A segunda está em curso, capitaneada por seu filho, que pede para não perder o emprego enquanto conspira contra empregos, empresas e instituições do país a partir dos Estados Unidos.