Sakamoto: patrões querem adiar fim da 6×1 botando raposa como gerente do galinheiro

Atualizado em 13 de abril de 2026 às 12:08
Carteira de Trabalho. Foto: reprodução

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

O lobby empresarial brasileiro, sempre ágil em defender o livre mercado quando se trata de lucro, mas dependente de subsídios estatais na primeira crise, tenta travar o fim da escala 6×1 defendendo que as categorias negociem individualmente. No papel, parece democrático. Na vida real do trabalhador vulnerável que acorda às 4h da manhã para pegar dois busões e um trem, é apenas a velha estratégia de deixar a raposa cuidando do futuro do galinheiro.

O que as entidades patronais propõem não é uma negociação, mas rendição por exaustão. Eles sabem que o trabalhador do comércio, o frentista do posto, a faxineira da terceirizada e o repositor de supermercado, os heróis invisíveis da escala 6×1, não possuem o mesmo poder de barganha que um engenheiro de software e um executivo de banco ou um bancário e um metalúrgico.

Quando parte do setor empresarial empurra a decisão para as mesas de negociação de cada categoria, ele está, na verdade, fatiando a resistência e empurrando a mudança com a pança. É a tática de dividir para conquistar, pois sabe que, em um cenário de desemprego ou subemprego, a “negociação” muitas vezes se resume ao seguinte dilema dado ao trabalhador: “Você quer manter o seu emprego ou quer ter o domingo com seus filhos? Escolha um, porque os dois não dá”.

Na maioria das vezes, dá sim, como deu em maio de 1888. Mas essa é a mágica do ilusionismo semântico.

Isso sem contar que impor a redução da jornada à negociação coletiva num país onde a Reforma Trabalhista de 2017 passou um trator sobre a organização sindical, é, no mínimo, cinismo.

A escala 6×1 é um moedor de carne que ignora que o ser humano tem um limite biológico e emocional. O argumento de que “cada setor tem sua especificidade” é a senha para o imobilismo. Se dependêssemos da “especificidade de cada setor” e da “vontade das partes” para avançar em direitos humanos, ainda estaríamos discutindo se o trabalho escravo deve ser abolido gradualmente ou se as crianças podem ou não operar teares em jornadas de 14 horas.

Até porque uma das “partes” está cansada. A saúde mental não é uma variável macroeconômica negociável. O cansaço crônico, o distanciamento familiar e a depressão decorrentes da falta de um descanso digno não podem ser trocados por um vale-refeição um pouco maior ou um bônus de produtividade.

Quando parte do patronato diz que a mudança é autoritária, ele está, na verdade, lamentando a perda do controle sobre o tempo de vida do outro. Sim, o que está em jogo aqui é o direito ao tempo. O tempo para não fazer nada, para estudar, para brincar com os filhos ou simplesmente para não ser uma extensão da máquina ou do balcão.

Manifestação na avenida Paulista pelo fim da escala 6×1. Foto: Bruno Santos/Folhapress

A tentativa de empurrar isso para negociações fragmentadas é uma forma de garantir que, para os setores mais vulneráveis, o fim da 6×1 nunca chegue. Tipo Godot. É o eterno “agora não, quem sabe depois, vamos ver como a economia reage”. E, sob o mesmo argumento, o povaréu está esperando até hoje aquele bolo que fizeram crescer na ditadura ser dividido.

Enquanto as associações de classe publicam notas técnicas prevendo o apocalipse econômico caso o trabalhador descanse dois dias por semana, os grandes varejistas e o setor de serviços seguem crescendo. A produtividade brasileira é baixa não por excesso de descanso, mas por falta de investimento, formação, tecnologia e, principalmente, por termos uma massa trabalhadora exausta, doente e sem perspectiva de futuro.

Nesse sentido, mudar a legislação para garantir o fim da 6×1 é estabelecer um patamar mínimo de civilidade. É dizer que, independentemente do que o sindicato consiga ou não arrancar do patrão na mesa de negociação, existe uma linha que não pode ser ultrapassada que vale para todo mundo e não apenas para quem tem representação forte. Negociação coletiva deve servir para ampliar direitos, nunca para garantir o básico que o Estado deveria assegurar.

Insistir no modelo atual, sob o verniz da “liberdade de negociação”, é perpetuar uma sociedade de castas, onde uns têm tempo para o lazer, o esporte e a cultura, enquanto outros são condenados a uma existência que se resume a trabalhar e se recuperar para o trabalho no dia seguinte.

A discussão saiu dos gabinetes e ganhou as ruas e as redes. Ou o Brasil encara o fim da 6×1 como uma questão de saúde pública e dignidade humana, ou continuaremos sendo um país que produz riqueza às custas da destruição da vida de quem a produz.

Diario do Centro do Mundo
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