
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
O lobby empresarial brasileiro, sempre ágil em defender o livre mercado quando se trata de lucro, mas dependente de subsídios estatais na primeira crise, tenta travar o fim da escala 6×1 defendendo que as categorias negociem individualmente. No papel, parece democrático. Na vida real do trabalhador vulnerável que acorda às 4h da manhã para pegar dois busões e um trem, é apenas a velha estratégia de deixar a raposa cuidando do futuro do galinheiro.
O que as entidades patronais propõem não é uma negociação, mas rendição por exaustão. Eles sabem que o trabalhador do comércio, o frentista do posto, a faxineira da terceirizada e o repositor de supermercado, os heróis invisíveis da escala 6×1, não possuem o mesmo poder de barganha que um engenheiro de software e um executivo de banco ou um bancário e um metalúrgico.
Quando parte do setor empresarial empurra a decisão para as mesas de negociação de cada categoria, ele está, na verdade, fatiando a resistência e empurrando a mudança com a pança. É a tática de dividir para conquistar, pois sabe que, em um cenário de desemprego ou subemprego, a “negociação” muitas vezes se resume ao seguinte dilema dado ao trabalhador: “Você quer manter o seu emprego ou quer ter o domingo com seus filhos? Escolha um, porque os dois não dá”.
Na maioria das vezes, dá sim, como deu em maio de 1888. Mas essa é a mágica do ilusionismo semântico.
Isso sem contar que impor a redução da jornada à negociação coletiva num país onde a Reforma Trabalhista de 2017 passou um trator sobre a organização sindical, é, no mínimo, cinismo.
A escala 6×1 é um moedor de carne que ignora que o ser humano tem um limite biológico e emocional. O argumento de que “cada setor tem sua especificidade” é a senha para o imobilismo. Se dependêssemos da “especificidade de cada setor” e da “vontade das partes” para avançar em direitos humanos, ainda estaríamos discutindo se o trabalho escravo deve ser abolido gradualmente ou se as crianças podem ou não operar teares em jornadas de 14 horas.
Até porque uma das “partes” está cansada. A saúde mental não é uma variável macroeconômica negociável. O cansaço crônico, o distanciamento familiar e a depressão decorrentes da falta de um descanso digno não podem ser trocados por um vale-refeição um pouco maior ou um bônus de produtividade.
Quando parte do patronato diz que a mudança é autoritária, ele está, na verdade, lamentando a perda do controle sobre o tempo de vida do outro. Sim, o que está em jogo aqui é o direito ao tempo. O tempo para não fazer nada, para estudar, para brincar com os filhos ou simplesmente para não ser uma extensão da máquina ou do balcão.

A tentativa de empurrar isso para negociações fragmentadas é uma forma de garantir que, para os setores mais vulneráveis, o fim da 6×1 nunca chegue. Tipo Godot. É o eterno “agora não, quem sabe depois, vamos ver como a economia reage”. E, sob o mesmo argumento, o povaréu está esperando até hoje aquele bolo que fizeram crescer na ditadura ser dividido.
Enquanto as associações de classe publicam notas técnicas prevendo o apocalipse econômico caso o trabalhador descanse dois dias por semana, os grandes varejistas e o setor de serviços seguem crescendo. A produtividade brasileira é baixa não por excesso de descanso, mas por falta de investimento, formação, tecnologia e, principalmente, por termos uma massa trabalhadora exausta, doente e sem perspectiva de futuro.
Nesse sentido, mudar a legislação para garantir o fim da 6×1 é estabelecer um patamar mínimo de civilidade. É dizer que, independentemente do que o sindicato consiga ou não arrancar do patrão na mesa de negociação, existe uma linha que não pode ser ultrapassada que vale para todo mundo e não apenas para quem tem representação forte. Negociação coletiva deve servir para ampliar direitos, nunca para garantir o básico que o Estado deveria assegurar.
Insistir no modelo atual, sob o verniz da “liberdade de negociação”, é perpetuar uma sociedade de castas, onde uns têm tempo para o lazer, o esporte e a cultura, enquanto outros são condenados a uma existência que se resume a trabalhar e se recuperar para o trabalho no dia seguinte.
A discussão saiu dos gabinetes e ganhou as ruas e as redes. Ou o Brasil encara o fim da 6×1 como uma questão de saúde pública e dignidade humana, ou continuaremos sendo um país que produz riqueza às custas da destruição da vida de quem a produz.