Sakamoto: perguntas que Caiado terá que fazer para provar não ser novo Padre Kelmon

Atualizado em 30 de março de 2026 às 11:10
Padre Kelmon e Ronaldo Caiado. Foto: Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL

O governador Ronaldo Caiado (PSD-GO), se quiser provar que não será linha auxiliar de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas eleições presidenciais de outubro, terá que suar a camisa para mostrar serviço. O problema é que, se suar demais, pode acabar afastando a maioria do eleitorado de direita que está com o clã. E, se se esforçar de menos, pode assumir função que já foi do Padre Kelmon.

Não adianta perguntar sobre os buracos da política do governo Lula para o combate às facções criminosas e esquecer de questionar as relações de Flávio Bolsonaro com milicianos do Rio, como Adriano “Arquivo Queimado” da Nóbrega. Tampouco perguntar sobre os parceiros de negócios de Fabio Luís Lula da Silva e ignorar as joias doadas ao Brasil por ditaduras árabes que foram surrupiadas por Jair ao final de seu governo.

Não basta parecer terceira via, o governador terá que agir como tal. Caso contrário, ele estará lá não para propor algo de novo, mas para mostrar que pode ser mais útil ao bolsonarismo do que o primogênito do patriarca.

Ninguém nega que sua candidatura será de direita, mas isso não significa apagar os pecados do adversário no mesmo campo. Principalmente em um panorama de ultrapolarização.

Alguns indicadores vão mostrar se o governador vai propor uma pauta baseada nas demandas do agronegócio, do conservadorismo e da Faria Lima (por mais equivocadas e perniciosas aos trabalhadores que, na minha opinião, muitas delas sejam, a defesa delas faz parte da democracia) ou se irá operar apenas como ajudante.

Ronaldo Caiado e Flávio Bolsonaro. Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo

Por exemplo, entre uma e outra cacetada em Lula, o que é esperado, Caiado terá que questionar o desvio de grana dos gabinetes do então deputado federal Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio, resgatar o faz-tudo Fabrício Queiroz e denúncias de lavagem de dinheiro usando chocolate, bem como tratar da aquisição de patrimônio, como a mansão de mais de R$ 6 milhões que o hoje senador comprou em Brasília. Ou ainda se Flávio usou a Agência Brasileira de Inteligência durante o mandato do pai para produzir relatórios com o objetivo de orientar a sua defesa no caso das “rachadinhas”.

Isso só para citar casos pessoais, fora tudo o que ocorreu durante o governo passado. O próprio governador, que é médico, bateu de frente com o então presidente durante a pandemia por causa do negacionismo de Jair. Poderia questionar os mais de 700 mil mortos que estão na conta do clã Bolsonaro. Ou, mais recentemente, o prejuízo de empresas e empregos brasileiros causado pela ação do irmão de Flávio, o ex-deputado Eduardo. Para tentar impedir a condenação do pai, ele ajudou a convencer o governo Donald Trump a baixar o famigerado tarifaço de 50% contra a economia do país.

A principal pergunta não é sobre quem Caiado atacará mais, mas quem ele terá coragem de enfrentar de verdade. Porque fazer oposição a Lula rende aplauso fácil em certos auditórios, difícil é encarar o próprio campo sem baixar a cabeça. Se escolher o conforto da claque, vira eco de Bolsonaro e pode se tornar ministro em caso de derrota do incumbente. Se escolher o risco do confronto honesto, pode até desagradar aliados, mas ganha densidade política.

Entre ser linha auxiliar de Flávio Bolsonaro ou protagonista de si mesmo, não há meio-termo sustentável. E quem tenta equilibrar os dois lados acaba, quase sempre, escorregando para o papel do figurante que será lembrado sem saudades. Algo que o Padre Kelmon conhece bem.