Sakamoto: Plano ‘infalível’ de Zambelli termina como roteiro de Cascão e Cebolinha

Atualizado em 27 de março de 2026 às 6:58
Carla Zambelli perseguindo Luan Araújo. Foto: reprodução

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

A Justiça da Itália decidiu pela extradição da ex-deputada federal Carla Zambelli, condenada no Brasil por invadir os sistemas do Conselho Nacional de Justiça e plantar mandados de prisão falsos. Ainda cabe recurso, tanto jurídico quanto político. Mas o mais importante é que o Judiciário italiano afastou a justificativa fantasiosa de que ela seria vítima de perseguição política, avaliando tratar-se de uma criminosa comum.

O bolsonarismo tem usado o caso para atacar o STF e promover a já desgastada mentira de que vivemos uma ditadura. Ostenta o caso como se fosse um ataque à liberdade de expressão. Faz isso não por amor à deputada, mas pela possibilidade de atingir o tribunal. Tal qual fizeram com o deputado Daniel “Surra de Gato Morto” Silveira, transformado em mártir da extrema direita em 2022 — e, depois, abandonado por ela.

Mas a ordem de prisão contra Zambelli é diferente de outros casos, como o de Allan dos Santos, foragido da Justiça brasileira por incitação a crimes contra instituições democráticas, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Ele está nos EUA e deve permanecer por lá. Ou o de Oswaldo Eustáquio, que teve prisão decretada por incitar os atos golpistas de 12 de dezembro de 2022, em Brasília (data da diplomação de Lula), quando bolsonaristas incendiaram veículos e tentaram invadir a sede da Polícia Federal. Ele está foragido na Espanha.

Questões sobre a natureza dos pedidos de extradição e de asilo político influenciaram na permanência deles nesses países. Discordo quando bolsonaristas afirmam que eles são perseguidos por crime de opinião, mas há, nesse caso, alguma margem para disputa de narrativas. Zambelli, por sua vez, simplesmente arrombou a porta do Poder Judiciário com o pé — digital, neste caso — e forjou documentos. Coisa de criminoso comum.

Com a ajuda do hacker Walter Delgatti Neto, invadiu o sistema do CNJ, inserindo pedidos de prisão (como um contra o ministro Alexandre de Moraes), ordens de soltura e outras aberrações. Foi condenada a dez anos de prisão e à perda do mandato. Não é diferente de alguém entrar em uma corte e inserir ordens falsas contra outras pessoas para serem cumpridas.

Carla Zambelli presa na Itália. Foto: reprodução

Isso sem falar que ela também foi condenada por porte ilegal de arma e constrangimento ilegal por ter perseguido um eleitor de Lula, com uma arma em punho, pelas ruas do bairro dos Jardins, em São Paulo, após um bate-boca, na véspera do segundo turno de 2022. Nem é necessário dizer que ela colocou em risco a vida de outros cidadãos, que observavam a cena em pânico. Bolsonaro já a culpou, em parte, pela derrota por causa desse furdúncio.

O mais interessante é que Zambelli invadiu o CNJ porque o hacker considerou ser impossível invadir o TSE. Essa parte, o bolsonarismo não conta.

Por fim, a condenação revela alguém que tropeçou na própria arrogância.

“Eles vão tentar me prender na Itália, mas eu não temo, porque sou cidadã italiana e lá sou intocável. A não ser que a Justiça italiana me prenda e, aí, não será o Moraes, será a Justiça italiana. Estou pagando para ver um dia desses”, afirmou Carla Zambelli, em junho do ano passado, à CNN Brasil.

É claro que a Itália ainda precisa dar a palavra final, podendo soltá-la, colocá-la em prisão domiciliar, transferi-la para um presídio ou extraditá-la para a Colmeia — onde cumpriria sua pena em Brasília. Primeiro, com a Justiça; depois, com o governo da primeira-ministra Giorgia Meloni. Se ainda fosse Bolsonaro o foragido, o vice-primeiro-ministro Matteo Salvini pressionaria por um asilo. Mas… Zambelli? Aquela que contribuiu para a derrota da direita?

De qualquer forma, o dia que ela disse que não chegaria chegou, mostrando que ela não é “intocável”.

A prisão em Roma, seguida da condenação, foi uma resposta prática à sua arrogância. Ela achou que tinha um plano infalível, mas este se mostrou tão eficaz quanto os do Cebolinha e do Cascão. Independentemente do que aconteça com ela, intocável já não é.

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