
Por Leonardo Sakamoto no UOL
Os ministros Kassio Nunes Marques, presidente do TSE, e André Mendonça circularam uma minuta de resolução com o objetivo de bloquear todos os canais de WhatsApp com mais de 200 mil usuários nas 48 horas anteriores ao segundo turno, segundo revelou Patrícia Campos Mello, na Folha de S.Paulo. A proposta, de autoria de Mendonça, funcionaria na prática como um “AI-5 digital”, restringindo o direito de reunião para fins pacíficos, cerceando a liberdade de expressão e baixando censura.
O movimento tem um alvo cristalino: o canal “Exército do Lula”. Criado pelo deputado André Janones, o grupo já conta com mais de 7 milhões de inscritos e tem sido fundamental para a mobilização da esquerda. A ação ocorre na esteira da preocupação da campanha de Flávio Bolsonaro, que percebeu que a intensa mobilização digital liderada por Janones ajudou a Lula ultrapassar o senador em popularidade nas redes.
Vamos falar de outra forma: em termos de população, o canal tocado por Janones seria hoje a segunda capital do país em número de habitantes, atrás de São Paulo (com quase 12 milhões) e à frente do Rio (que tem 6,7 milhões). Imagine um decreto que impedisse uma cidade desse tamanho de usar o WhatsApp?
A “Tropa do Flávio”, no WhatsApp, tem 2 milhões de inscritos. Mas usar o doisladismo aqui, dizendo que ambos os lados seriam igualmente atingidos, ignora o básico: Lula é quem está atrás, precisando ultrapassar Flávio. E a resolução do TSE ajudaria a cristalizar a situação atual, beneficiando quem está em primeiro.

Após a reportagem ser publicada, Kassio afirmou que é contra alterações de última hora e descartou a medida. Ainda frisou que o pai dessa criança feia é Mendonça.
A equipe de Flávio já havia ingressado com várias representações no TSE pedindo a derrubada do canal. Kassio Nunes Marques chegou a censurar a ferramenta, mas, após o canal atender às exigências de registro oficial criadas por ele, precisou ser liberado e retornou ao ar.
A Folha também informa que Mendonça propõe bloquear totalmente o impulsionamento de publicações políticas, o que beneficiaria o bolsonarismo que conta com mais políticos e influenciadores com grande número de seguidores, como orgânico, como Nikolas Ferreira e Pablo Marçal.
A insistência nessa asfixia digital levanta graves questionamentos sobre a imparcialidade do processo. Kassio precisa desesperadamente de uma vitória de Flávio para evitar que suas relações promíscuas com Daniel Vorcaro cobrem a fatura. E Mendonça quer hegemonia no STF, ajudando Flávio a escolher os próximos ministros.
Quando a Justiça Eleitoral é acionada para calar o engajamento popular às vésperas da votação, o que se vê não é a defesa da lisura, mas o flerte perigoso com o autoritarismo de conveniência. Resta saber se os outros cinco ministros aceitariam passivamente que essa manobra fosse imposta a eles e intubada ao país.