Sakamoto: Reduzir a 6×1, mas aumentar jornada para 9h é chamar eleitor de otário

Atualizado em 10 de fevereiro de 2026 às 21:49
Mãos masculinas segurando carteira de trabalho
Imagem ilustrativa – Reprodução

Não é ameaça, mas aritmética eleitoral. Em ano de voto, parlamentar que insiste em defender a escala 6×1 está escolhendo brigar com a população, o que costuma dar errado nas urnas. Ou seja, posta em votação, a matéria será aprovada por ampla maioria nas duas Casas. O que deve ocorrer antes de junho.

A questão principal agora é outra. Há parlamentares, respaldados pelo lobby de determinados setores econômicos, que aceitam a redução de 6 para 5 dias de trabalho por semana, mas com a manutenção de 44 horas. Isso significa o quê? Que a Constituição seria mudada para que os trabalhadores (que já vivem numa epidemia de burnout) tenham que trabalhar quase 9 horas por jornada ao invés das 8 de hoje.

Outra linha, tão inacreditável quanto, defende a redução de jornada e de horas trabalhadas, mas com a redução de salário. Hoje, os projetos em trâmite determinam que a diminuição venha com a manutenção da remuneração. Vi, com esses olhos que a terra há de comer, gente comum defendendo isso nas redes sociais sob a justificativa de não premiar “vagabundo”. São os chamados Guerreiros do Capital Alheio, o pessoal que, apesar de se lascar para sobreviver, goza quando brasileiros entram na lista da Forbes.

Caso qualquer um desses arranjos seja aprovado pelo Congresso, não tenha dúvida nenhuma de que o eleitor vai cobrar a fatura. Pois são piores do que manter do jeito que está, o equivalente a tatuar “otário” na testa dos trabalhadores.

A escala que condena milhões de trabalhadores a seis dias de trabalho para um de descanso não é apenas uma organização do tempo. É uma política pública de exaustão. Rouba convivência familiar, lazer, saúde mental e até a capacidade de planejar a própria vida.

O fim da 6×1 significa algo simples e profundamente transformador: gente podendo descansar de verdade, ter tempo para estudar, se qualificar, cuidar da saúde, conviver com filhos, amigos e consigo mesma. Vida fora do expediente não é privilégio, é condição básica para qualquer sociedade minimamente civilizada.

Não por acaso, quando se pergunta às pessoas se elas querem o fim do 6×1, a resposta é massiva: sim. De esquerda a direita, de lulistas a bolsonaristas, passando pelos independentes, a rejeição é ampla. Todo mundo conhece alguém esgotado, adoecido, vivendo para trabalhar. Ou é essa pessoa.

Congresso Nacional
Congresso Nacional – Reprodução

Por isso, o debate não é técnico. É moral e político. Quem vota contra o fim da 6×1 não está “defendendo a economia”. Está defendendo um modelo atrasado de exploração do tempo alheio, sustentado por uma crença falsa: a de que trabalhar mais horas significa produzir mais. Não significa. Significa errar mais, adoecer mais, faltar mais e render menos.

Sim, o fim da escala 6×1 também é bom para as empresas. Trabalhadores descansados, menos estressados e com vida fora do trabalho são mais produtivos, mais criativos e mais comprometidos. A escala 5×2 não é inimiga da eficiência, mas aliada.

E, em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, oferecer condições melhores virou diferencial. Empresas que adotam jornadas mais humanas atraem e retêm talentos. As que insistem no moedor de gente ficam com rotatividade alta e equipes exaustas.

Parlamentares sabem disso. Sabem também que, quando o assunto chega à mesa da cozinha, à fila do ônibus ou ao grupo de WhatsApp da família, o discurso que defende o jeito que está desmorona. Porque, no Brasil, a rigidez do relógio e a ameaça do desemprego fica sempre com o trabalhador.

A votação do fim da escala 6×1 virou um divisor de águas. Quem apostar que dá para passar ileso por ela sem tomar posição subestima a memória do eleitor. E superestima o próprio mandato.

A menos, claro, que esse parlamentar não represente trabalhadores, mas interesses. Ou represente trabalhadores que acreditam ser patrões. Tirando esses casos, a conta pode até fechar no gabinete. Mas não fecha nas urnas.

Publicado originalmente no UOL