Sakamoto: Repressão continua na Venezuela, agora com a bênção dos Estados Unidos

Atualizado em 8 de janeiro de 2026 às 7:57
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e Marco Rubio, secretário de Estado. Foto: Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Obtido o controle da maior reserva de petróleo do mundo por tempo indeterminado, o governo Donald Trump agendou para o Dia de Sei Lá Quando a prometida transição democrática na Venezuela. Nem consigo imaginar a vergonha do povo que saiu às ruas de São Paulo, de Buenos Aires e de outras cidades, enrolado em uma bandeira dos EUA, para festejar a libertação (sic) do povo venezuelano. Que humilhação…

O secretário de Estado Marco Rubio afirmou nesta quarta-feira (7) que o plano de Washington para Caracas terá três etapas: estabilização do país, recuperação econômica e, só então, uma transição democrática. Cronograma para eleições livres e diretas? Fez xibiu, ninguém sabe, ninguém viu.

Até porque, convenhamos, os Estados Unidos não bombardearam a Venezuela e sequestraram Maduro para permitir que um futuro governo democraticamente eleito faça um leilão de exploração dos campos de petróleo. Ou que negocie com quem quer que seja, como China e Rússia. America First, baby.

Enquanto isso, Delcy Rodríguez, que é vice de Maduro desde 2018 e faz parte da chapa presidencial que fraudou as últimas eleições, está no poder. E, principalmente, continuam o general Vladimir Padrino López, ministro da Defesa, e Diosdado Cabello, ministro do Interior e Justiça. O primeiro continua comandando as tropas e o segundo, as forças de segurança.

O que Rubio chamou de “estabilização” é etapa inicial para os EUA assumirem o controle do petróleo, o que inclui uma quarentena da Venezuela no mercado internacional do produto, a apreensão de petroleiros (como o de bandeira russa, ocorrida hoje) e o pagamento das “luvas” aos EUA, ou seja, 30 a 50 milhões de barris. Afinal, invadir outros países custa caro.

Homem caminha em frente de muro com bandeira da Venezuela e petróleo em Caracas
Homem caminha em frente de muro com bandeira da Venezuela e petróleo em Caracas. Foto: FEDERICO PARRA/AFP

E os EUA é que tutelarão como a grana do petróleo será usada pelos venezuelanos. Até porque, como até Jeffrey Epstein está morto de saber, só eles não têm corrupção.

A fase de “recuperação” passa por permitir acesso às empresas norte-americanas e de outros países ao petróleo venezuelano, tudo sob a supervisão do Tio Sam. Daí começa uma reconciliação nacional, com anistias e perdões — que ocorrerão dos dois lados, não tenha dúvidas. Só depois começará uma fase de transição, em que todos os grupos políticos poderão disputar eleições. Quando? Nem Deus sabe.

Reportagem do jornal The New York Times aponta que o governo de Delcy Rodríguez está intensificando a repressão contra a população, vasculhando celulares e prendendo pessoas suspeitas de terem comemorado o sequestro de Maduro. E isso no momento em que o país se tornou, a despeito das bravatas de militares venezuelanos e da própria presidente interina, um protetorado informal dos EUA.

O que se vendeu como libertação virou manual clássico de ocupação: petróleo primeiro, democracia depois, se der tempo. A Venezuela troca um autoritarismo doméstico por uma tutela estrangeira, com repressão mantida, farda intacta e soberania terceirizada.

Quem bateu panela e vestiu bandeira alheia talvez descubra tarde demais que a “transição” prometida não tem data, nem povo como protagonista: apenas barris como garantia. O resto é retórica para consumo externo e silêncio imposto aos que ficaram do lado de dentro do protetorado.