
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Primeiro, eles matam o corpo. Depois, tentam assassinar a biografia. A tática, velha conhecida dos brasileiros e usada após a execução da vereadora Marielle Franco, em 2018, repete-se agora nos Estados Unidos com a morte de Alex Pretti. O enfermeiro de 37 anos, assassinado por agentes federais sob ordens de Donald Trump, em Minneapolis, tornou-se o novo alvo de uma máquina de desinformação que, tal como ocorreu no Rio de Janeiro, visa transformar a vítima em algoz para justificar a barbárie.
Pretti era um enfermeiro de terapia intensiva que atendia veteranos e que atuou na linha de frente da pandemia de Covid-19, descrito por colegas como uma pessoa gentil e uma presença serena em meio ao caos hospitalar. No entanto, poucas horas após ser morto a tiros por agentes de imigração (ICE), enquanto os filmava com um celular, tanto o governo Trump quanto a extrema direita norte-americana o rotularam como um “potencial assassino” e “terrorista doméstico”.
A estratégia é repugnantemente similar à adotada contra Marielle. Enquanto a vereadora ainda era velada, políticos e milícias digitais espalharam boatos de que ela seria casada com um traficante e eleita por facções criminosas. No caso de Pretti, a narrativa oficial tentou pintar um homem segurando um telefone como alguém que iria causar uma “matança” e “perpetuar a violência”. A arma que ele possuía legalmente sequer foi sacada, conforme mostram vídeos e relatos de que ele foi desarmado antes de ser baleado.

O objetivo de matar a reputação de alguém que acabou de ser executado não é aleatório. É um cálculo racional de redução de danos. Se Pretti for lembrado como o “homem bom” que a família, amigos e colegas descrevem, um ciclista amante da natureza e profissional dedicado aos veteranos, sua morte torna-se a de um mártir capaz de catalisar mudanças e mobilizar a sociedade contra a violência policial.
Vale lembrar que, no dia de seu assassinato em Minneapolis, milhares foram às ruas da cidade exigir o fim das operações do ICE — que já haviam executado de forma estúpida outra cidadã norte-americana, Renee Good.
Foi o que temeram os algozes da memória de Marielle: que a reação catártica à sua execução mudasse o balanço de forças sociais e políticas. Para evitar isso, era necessário destruir a credibilidade da vítima, impedindo que seu exemplo desse frutos. Alerta de spoiler: não conseguiram.
E, anos depois, as investigações mostraram que, entre os mandantes, estavam um deputado federal (Chiquinho Brazão), um desembargador do TCE-RJ (Domingos Brazão) e um chefe da Polícia Civil (Rivaldo Barbosa). Ou seja, o poder.
A gravidade da mentira aumenta quando ela é validada por autoridades. No Brasil, por exemplo, a desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro Marilia Castro Neves e o deputado federal Alberto Fraga compartilharam mentiras sobre Marielle em suas contas nas redes sociais, dando-lhes um verniz de verdade institucional. Nos EUA, é a própria administração federal que chama um enfermeiro morto de terrorista, ignorando os apelos de amigos e familiares que denunciam “mentiras repugnantes”.
O governador de Minnesota, Tim Walz, precisou vir a público afirmar que difamar um cidadão norte-americano e pedir que ignoremos o que nossos olhos viram nos vídeos é inaceitável.
EMBED
Vivemos na era das câmaras de eco e do viés de confirmação, em que a correção da notícia falsa muitas vezes não fura o bloqueio da polarização política. Quem já nutre simpatia pela violência praticada por agentes de um governo de extrema direita ou contra atores políticos vistos como progressistas aceitará a versão de que o enfermeiro e a vereadora eram um perigo, pouco importando se eram conhecidos pela integridade.
A família de Pretti pediu: “Por favor, divulguem a verdade sobre nosso filho”. Uma vez executada a pessoa, assassinar sua reputação é a forma de garantir que ela morra definitivamente. O silêncio diante dessa tentativa de duplo homicídio representa a nossa mais pura conivência.
Quando o Estado falha em punir os assassinos de reputação, envia um recado claro: matar pode compensar, desde que a vítima seja previamente desumanizada. Minneapolis e Rio de Janeiro estão mais próximos do que parece — e não só pelo racismo de Estado, que produz casos como o de George Floyd por aqui e o de Ágatha Felix por lá.
Em ambos os países, a disputa não é apenas por justiça criminal, mas pelo direito básico à memória, à dignidade e à verdade. Se não formos capazes de concordar que difamar um morto para proteger o poder é inaceitável, então já normalizamos algo muito mais perigoso do que qualquer protesto ou denúncia: a ideia de que algumas vidas valem menos — e que suas histórias podem ser reescritas à bala ou por mensagens de zap.