Sakamoto: Senado cortará cabeça de Toffoli para salvar a própria pele no caso Master?

Atualizado em 13 de fevereiro de 2026 às 14:13
Dias Toffoli, ministro do STF. Foto: Divulgação

Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL

Em Brasília, não existe vácuo. Existe cálculo. O presidente do Senado vem sendo pressionado a abrir uma frente de investigação diante das evidências de relações promíscuas entre o ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Pressão, por si só, nunca derrubou ninguém na praça dos Três Poderes. A pergunta é outra: quais os interesses dos envolvidos?

Quando a Lava Jato avançou sobre figurões da República, o sistema precisou oferecer um sacrifício. A cabeça servida na bandeja foi a de Dilma Rousseff, apesar da ridícula justificativa das pedaladas. Ela não foi ao cadafalso por conta dos pecados cometidos pela sua gestão na economia, muito menos em termos de corrupção, mas porque era a peça possível a tombar no tabuleiro.

Agora, diante da percepção de que o Banco Master operava como Banco do Centrão, com digitais espalhadas por gabinetes e corredores acarpetados, Toffoli pode ir para a prancha.

Vale ressaltar que, se isso acontecer, o próprio ministro, ao contrário de Dilma, terá sido corresponsável pelo seu futuro. Chamou para si a relatoria do caso, impôs estranho sigilo, centralizou provas no Supremo, viajou em jatinho com advogado de réu para assistir à final da Libertadores em Lima, viu seu nome associado a transações nebulosas envolvendo ele, Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel e um resort. Num país normal, isso renderia investigação criminal robusta. No Brasil, rende guerra institucional.

Parte do Congresso quer ver tudo em pratos limpos. Mas não nos iludamos: a fome de outra parte não é por justiça. É por autopreservação. Parlamentares acuados por investigações farejam a oportunidade de redirecionar o foco. Transformar um ministro em para-raios pode aliviar tempestades que ameaçam mandatos. O sacrifício pode acalmar a opinião pública passando a falsa impressão de que tudo está resolvido.

Prédio do Banco Master. Foto: Divulgação

Mas não estará. O caso Master pode envolver gente graúda do Congresso, líderes partidários, governadores bolsonaristas, gente importante ligado ao governo federal, Faria Lima, PCC. Toffoli pode fazer parte do escândalo, mas, não se enganem, é apenas uma pequena peça dele.

Há ainda o oportunismo institucional. Um eventual impeachment abriria duas cadeiras no Supremo para indicação de Lula. Entre os cotados, o seu preferido, o advogado-geral da União Jorge Messias, e o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco, preferido do presidente do Senado Davi Alcolumbre.

O problema é que, uma vez aberta a porteira, o rebanho passa. Outros ministros do STF estão na mira simplesmente por cumprirem seu papel, como Flávio Dino, relator dos desvios de emendas parlamentares. E parlamentares que defenderam com afinco Daniel Vorcaro, como Ciro Nogueira, sabem que a investigação vai avançar muito ainda.

Lula não nutre afeto especial por Toffoli. Guarda memórias amargas do período em que esteve preso em Curitiba, quando foi impedido pela ministro de ir ao velório do próprio irmão, como lembrei aqui ontem. Mas também não deseja ver o caso convertido em munição contra sua reeleição.

No fim das contas, menos do que a apuração de responsabilidades ou o enfrentamento da promiscuidade entre poder político e mercado financeiro, o que está em jogo é a sobrevivência.

Em Brasília, raramente se trata apenas de moralidade. Trata-se de quem será imolado para que o restante continue respirando.