Sakamoto: ‘Sonho de liberdade’, Paraguai reprime quem protesta contra golpe de banco

Atualizado em 6 de novembro de 2026 às 7:24
Correntistas participam de protesto após Ueno Bank lascar a vida de milhões de paraguaios. Foto: Daniel Duarte/AFP

O Paraguai sempre foi vendido como uma espécie de paraíso para uma parte da extrema direita brasileira. Um Éden de impostos baixos, Estado mínimo e liberdade econômica irrestrita. Nos últimos dias, vimos o conto de fadas desmoronar de forma violenta quando a conta do cassino financeiro foi socializada.

O colapso do Ueno Bank, banco digital que teve suas atividades suspensas pelo Banco Central do Paraguai e deixou quase metade da população do país (cerca de 2,9 milhões de clientes) sem acesso às próprias contas, carrega as digitais do presidente Santiago Peña. O mandatário, que até o ano passado era sócio do grupo controlador do Ueno, apresentou hoje renúncia ao cargo, mas os deputados não querem aceitar. Preferem um processo o impeachment.

O nível de promiscuidade institucional choca: o presidente escolheu Carlos Carvallo, que havia dirigido o Ueno, para comandar o Banco Central. Sim, a instituição financeira responsável por um apagão financeiro histórico passou a ser fiscalizada por um ex-dirigente seu. Uma ação entre amigos onde o conflito de interesses não é uma anomalia de percurso, mas o método de governo.

Quando estudantes, trabalhadores e aposentados tomaram as ruas de Assunção para exigir “Que devolvam tudo!” e marcharam em direção ao Congresso Nacional e da residência presidencial, a resposta do governo não foi o “sagrado respeito à propriedade privada”. Mas balas de borracha,bombas de gás e jatos d’água disparados pela Polícia Nacional contra os manifestantes. A mão invisível do mercado, não raro, calça coturnos e segura cassetete.

Santiago Peña
O ex-presidente do Paraguai, Santiago Peña. Foto: Cesar Olmedo/Reuters

O roteiro da pilhagem é velho conhecido na América Latina. O lucro especulativo é blindado, enquanto o prejuízo (neste caso, fruto da suspeita de repasses de milhões em empréstimos sem garantias a empresas do próprio grupo) é socializado com a população. Enquanto figurões engravatados brincavam de banqueiros, cidadãos comuns, incluindo brasileiros residentes por lá, ficaram da noite para o dia sem dinheiro para comprar comida, quitar aluguéis ou pagar mensalidades. Gente em desespero dava entrevistas aos jornais e canais do país vizinho.

E a política tradicional, fiel à sua natureza de sobrevivência parasitária, agiu rápido. Ao verem a insatisfação popular ferver, os caciques conservadores do governista Partido Colorado não hesitaram em atirar o afilhado ao mar e apoiar o seu impeachment. Peña virou o boi de piranha descartável, sacrificado a contragosto apenas para salvar as engrenagens do sistema que o colocou na cadeira presidencial.

O escândalo ensina, mais uma vez, uma lição pedagógica e amarga. Na tão propagada “terra da liberdade da direita”, o conceito de liberdade se resume ao direito irrestrito de uma elite financeira de sequestrar a economia. E, quando o povo ousa protestar nas ruas contra o roubo institucionalizado de suas poupanças, o tão aclamado Estado Mínimo funciona de maneira muito eficiente para entregar repressão máxima.

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