
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Feito um papagaio com cãibra, tenho repetido a necessidade de a Polícia Federal investigar a fundo as conexões políticas e jurídicas do Banco Master e dos fundos de investimento suspeitos de lavar dinheiro para o PCC. O mesmo vale para as conexões financeiras. Porque o cheiro podre de ativos em decomposição vendidos por essas instituições está exalando um bodum sobre a Faria Lima.
Investigação das incansáveis Amanda Rossi e Natália Portinari, no UOL, aponta que fundos da Reag, suspeitos de participarem de fraudes no Banco Master e de lavar grana para o Primeiro Comando da Capital, anabolizaram papéis podres do antigo Besc (Banco de Santa Catarina), que foi liquidado há 18 anos.
A Reag comprou títulos do Besc a partir de R$ 0,50 a unidade, mas atribuiu a eles valores de até R$ 600 cada nos balanços, valorização de 120.000%. Segundo a reportagem, esses mortos-vivos ficaram transitando dentro da Reag em operações que alcançaram R$ 29 bilhões. É um negócio com retorno maior do que bombardear país vizinho para controlar o petróleo.
É podre o título porque expirou o prazo para que fosse convertido em dinheiro ou ações de quem incorporou a carteira de clientes — no caso, o Banco do Brasil. Quem compra e vende os papéis (literalmente, pois são impressos) tem fé de que, um dia, a Justiça decida que o BB deve comprar esse papelório. Mas, se isso acontecer, eles valeriam menos de R$ 2 para cada ação — o equivalente a quatro balas Juquinha.

Ou seja, o esquema comercializava zumbis como se fossem atletas de ponta. Títulos podres eram transacionados como ouro, criando uma riqueza fantasma que podia servir para alavancar operações, atrair investidores desavisados e, claro, lavar o dinheiro sujo. Talvez até de sangue.
A simulação de operações com ações podres é a versão gourmet da nota falsa. Mas, em vez de passar a cédula no mercadinho do bairro, ela circula em operações de crédito bilionárias.
A Reag diz que os fundos são auditados pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e pelo Banco Central. As instituições precisam ser cobradas para aprimorar a fiscalização, mas não só isso. Os casos de lavagem de grana do PCC e de venda de terrenos na lua pelo Master deveriam ser um momento importante para que o mercado também seja escrutinado. Não é normal que situações como essas sejam normalizadas.
Reag e o Banco Master não operavam no vácuo. Eles contavam com a cegueira conveniente e a ganância de parte do mercado, que raramente pergunta a origem do dinheiro quando a taxa de retorno é boa. O “compliance”, aquela palavra mágica que os bancos e as financeiras adoram colocar em relatórios de sustentabilidade, virou piada de salão.
O mais perverso dessa história não é um banqueiro quebrar. Super-rico, quando quebra, geralmente cai para cima, com patrimônio blindado em holdings no exterior ou em intrincados sistemas de empresas dos quais eles têm o usufruto. O problema é quem paga a conta.
Estamos falando de fundos de pensão de servidores públicos, como o do Rio de Janeiro, que podem ter sido tungados em quase um bilhão. Estamos falando do FGC (Fundo Garantidor de Créditos), que vai ter que desembolsar uma fortuna para cobrir o rombo. Estamos falando do consumidor, que se lasca com gasolina batizada do PCC, enquanto o lucro do crime é lavado pelo mercado.
Reag e Master indicam que o Brasil é vanguarda: aqui, o crime não compensa apenas — ele paga dividendos, faz IPO e ainda sai na capa de revista de negócios como “case de sucesso”. Até que a casa caia, é claro. Mas até lá, o prejuízo já foi socializado com você.