Sakamoto: Toffoli estar mais chocado com a PF do que com o Master pega mal para o STF

Atualizado em 15 de janeiro de 2026 às 9:41
O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF). Foto: Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

O piti público de Dias Toffoli, que deu um pito na Polícia Federal, irritado com o papo de que estaria passando pano para o Banco Master, acabou sendo um peso extra ao STF. O ministro achou que estaria evitando pagar o pato, diante da reclamação de que está sofrendo na pele de forma injusta, mas viu um pico de críticas a ele e à Corte. Nas redes, na sociedade civil, nas instituições públicas, há muita gente “p” da vida.

Em um momento em que o Supremo Tribunal Federal é questionado a respeito do conflito de interesses de alguns de seus integrantes, logo após ter cumprido um papel fundamental para o país no julgamento da trama golpista, era de se esperar algum cuidado para evitar uma crise na imagem da instituição.

Mas, com sigilo imposto ao processo do Banco Master, tentativa de acareação entre acusado e acusador antes da hora, dificuldades impostas à PF para analisar os telefones apreendidos ontem com empresários na segunda fase da Operação Compliance Zero, crítica nos autos ao órgão investigador e até viagem com o advogado de um dos réus para ver jogo de futebol, parece que Toffoli não está muito preocupado. Pobre presidente Edson Fachin.

Para quem não está entendendo, vale citar o sociólogo Oswaldo Montenegro, que retratou essa situação na obra “Lua e Flor”, ao discorrer sobre o pescador que se encanta mais com a rede do que com o mar.

Neste momento, Toffoli parece estar mais encantado com a rede (a Polícia Federal, que está expondo as falcatruas do Master) do que com o mar (o banco e seus sócios e aliados, que lesaram mais de um milhão de correntistas, deram golpe na aposentadoria de servidores públicos, venderam terreno na lua para banco estatal e compraram meio mundo na política).

A notícia que Daniel Vorcaro, do Banco Master, não queria que fosse publicada | Brazil Economy
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Foto: Reprodução

Polícia Federal e Banco Central não estão acima da lei e devem prestar contas à sociedade. Ninguém está elegendo heróis — essa fantasia deveria ficar restrita a livros, graphic novels, cinema e streaming. Mas a PF precisa de todo o respaldo neste momento, porque é grande a pressão para que uma pizza com cobertura de Dubai seja servida a Daniel Vorcaro. Temem que, com fome, ele incorpore a mítica figura do Delator do Fim do Mundo — que devora parlamentares, governantes, magistrados e gente crescida no leite de pera da Faria Lima.

É sempre bom lembrar que não foi a PF que desgastou a imagem de Toffoli, mas as ações do próprio ministro.

O STF pode até se dar ao luxo de escolher o tom — se pedagógico, se sisudo, se irritadiço. O que não pode é escolher a distração. Quando a rede é tratada como o problema e o mar some do horizonte, o risco não é apenas o de estragar uma boa metáfora, mas de mau julgamento histórico. A conta, cedo ou tarde, chega — e não costuma ser paga em sigilo.

Se o Supremo quiser preservar o capital político acumulado ao barrar um golpe, terá de lembrar que autoridade não se afirma dando pito, nem piti, mas garantindo que ninguém seja grande demais para ser investigado. Do contrário, a Corte que ajudou a salvar a democracia pode acabar lembrada como aquela que deixou escapar, pela lateral, um banco quebrado, um rastro de vítimas e um delator que, esfomeado, estaria pronto para transformar Brasília inteira em buffet.