
Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL
Confirmado que o ministro Dias Toffoli grampeou mesmo a reunião em que seus colegas de STF o salvaram de uma humilhação pública, ele terá atingido nove na Escala Silvério dos Reis da Trairagem Nacional, em que zero é Pedro Casaldáliga, Paulo Evaristo Arns e Irmã Dulce e dez é Eduardo Bolsonaro. Mas vai gabaritar em estupidez.
O portal Poder 360 revelou hoje declarações dos ministros do Supremo na reunião, a portas fechadas, que selou o destino de cofre. A grande maioria foi contra julgar a sua suspeição, deixando claro que, se ela fosse à votação, estariam ao lado dele. Para acalmar a opinião pública, Toffoli aceitou abrir mão da relatoria no caso do Banco Master.
Logo depois, Monica Bergamo, da Folha de S.Paulo, apurou que os ministros do tribunal acreditam terem sido gravados ontem, de forma sorrateira, por Toffoli. O ministro negou à jornalista que tenha feito a gravação ou relatado o caso a alguém. Peço desculpas aos leitores, mas não há outra expressão para definir o atual ambiente do Supremo que não seja clima de bosta.
O que queria o ministro com isso? Expor Cármen Lúcia, que foi a favor de colocar a questão em votação? Expor o ministro Edson Fachin, que não barrou o caso diretamente, levando-o à análise de seus pares? Mostrar que Kassio Nunes Marques e André Mendonça são mais corporativistas do que bolsonaristas? Nada disso faz sentido diante de uma análise sóbria dos fatos.
Talvez quisesse mostrar que tem a Corte nas mãos. Pois é difícil imaginar que alguém que grampeou colegas em uma reunião que o ajudou não tenha feito o mesmo em outras situações. Acrescentaria, aos sentimentos de indignação e perplexidade que devem estar rondando o Supremo, também o de ansiedade.

Caso não se dissipe a percepção de que ele traiu os colegas, como será a vida dele daqui para a frente na Corte? Pois uma coisa é assumir o figurino de advogado de defesa de Bolsonaro no julgamento da tentativa de golpe, tal como fez o ministro Luiz Fux. Vai rolar estranhamento, faíscas, inimizades, mas a convivência é possível. Mas e agora? Qual a versão jurídica da trombada no corredor que rolava na escola?
Toffoli é hoje uma quase unanimidade. Muita gente no Congresso não gosta dele, o presidente Lula ainda guarda mágoas após ter sido impedido por ele de ir ao velório do irmão quando esteve preso em Curitiba e, agora, os colegas do STF. Nem no resort Tayayá, do qual já foi dono, é bem-amado, haja vista as críticas dos funcionários que circularam na imprensa.
No Supremo, toga não é colete à prova de fogo. É tecido fino. Rasga com menos do que parece. Se confirmada a traição, Toffoli não terá apenas rompido um pacto de conveniência, mas terá dinamitado a confiança, a única moeda que sustenta um tribunal onde onze egos dividem o mesmo espelho.
Corte não funciona só com votos, funciona com bastidores. Ao praticamente chamar de “otários” quem participou de uma reunião de salvamento, ele ensinou aos colegas que qualquer porta fechada pode esconder um microfone. E, uma vez plantada a desconfiança, ela cresce mais rápido do que qualquer jurisprudência.
Talvez tenha acreditado que poder é acumular segredos. Mas poder, em Brasília, é sobreviver às memórias. E ministros têm memória longa. Não há habeas corpus para reputação corroída entre pares. Se o Supremo já vivia sob tensão externa, agora flerta com a implosão interna. E um ministro isolado numa corte colegiada não é mártir nem estrategista, mas refém da própria esperteza. Um paladino da burrice.
No fim, pode ter trocado a fogueira que o aquecia por um incêndio que não controla. Porque quem grava aliados para provar força descobre tarde demais que força sem confiança é só barulho. E barulho, no Supremo, pode ser abafado.