
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Flávio Bolsonaro acusou Alexandre de Moraes de “praticar tortura” porque mandou Jair de volta à carceragem da Polícia Federal, onde cumpre pena por tentar golpe, após alta no hospital em Brasília. Isso ativou redes de seguidores da extrema direita que passaram a defender, veja só, direitos humanos.
O ministro do STF não está torturando o ex-presidente, óbvio, isso é apenas o senador fazendo pressão pela prisão domiciliar do pai. Mas o fato de o clã estar criticando a ideia de tortura após anos tratando o torturador Brilhante Ustra, açougueiro da ditadura, como herói nacional é um plot twist oportunista e ruim de doer no roteiro desta chanchada chamada Brasil. Meus amigos, minhas amigas, o mundo não gira, capota.
Até quando Moraes terá procuração para praticar a tortura?
Em mais uma decisão cheia de sarcasmo, dizendo que saúde de Bolsonaro “melhorou”, o laudo médico é claro em apontar que ele precisa de cuidados permanentes que não podem ser garantidos numa prisão – existe até o risco de… pic.twitter.com/uBZqQ46gvQ
— Flavio Bolsonaro (@FlavioBolsonaro) January 1, 2026
Primeiro, falemos da questão humanitária.
É fato que o ex-presidente demanda acompanhamento médico por conta de questões de saúde decorrentes da facada que levou em setembro de 2018. Mas avaliação da Justiça é de que ele tem condições de continuar preso na carceragem da PF em Brasília. Caso a saúde de Jair demande, não tenha dúvidas que o STF o mandará para casa. Não porque Moraes é bonzinho, mas porque não é burro.
Desde antes de ser preso, Bolsonaro tentava colar a ideia de que sua saúde não permitiria que fosse para a cadeia. Isso ao mesmo tempo em que subia em carros de som, participava de motociatas, gritava com mulheres oficiais de Justiça e vendia vitalidade. Essa dualidade incompatível só faz sentido na cabeça dos seguidores que abriram mão do senso crítico.
Ao enviar o general Augusto Heleno, também condenado pela tentativa de golpe, à prisão domiciliar após laudo da Polícia Federal apontar que ele já sofre os efeitos do mal de Alzheimer e a Procuradoria-Geral da República apresentar recomendação favorável nesse sentido, Moraes indicou que não é contra medidas humanitárias para os condenados na ação penal 2668. Desde que elas sejas, de fato, necessárias. O que ajuda a enfraquecer a vitimização bolsonarista.
Agora, vamos discorrer sobre o oportunismo de falar de tortura.
Jair Bolsonaro sempre tratou o hoje finado coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra como “herói nacional”, tendo recebido a viúva do torturador no Palácio do Planalto para festejar sua memória. Ao votar pelo impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, então deputado federal, o homenageou: “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”. Pavor porque a ex-presidente foi torturada por ele.
Ustra foi chefe de um dos principais centros de repressão da ditadura, o DOI-Codi, em São Paulo, acusado de tortura, desaparecimento e morte de presos políticos. Chegou a ser declarado pela Justiça como responsável por esse crime contra a humanidade e também condenado a pagar indenização pela morte do jornalista Luiz Eduardo Merlino.
Merlino morreu em julho de 1971, aos 23 anos de idade, após ser torturado por 24 horas seguidas no DOI-CODI de São Paulo. O pau de arara deixou feridas nas suas pernas, que gangrenaram. Ustra participou das torturas e, de acordo com testemunhas, não autorizou a amputação das pernas que poderia ter salvo a sua vida.

Isso é tortura de verdade, mas esse tipo de coisa foi celebrada por anos nas redes sociais bolsonaristas.
O Destacamento de Operações de Informações — Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) era integrado por membros do Exército, Marinha, Aeronáutica e policiais. Os métodos desenvolvidos por este e outros grupos da repressão são, hoje, repetidos pela banda podre da polícia e das milícias.
O bolsonarismo está torturando a palavra “tortura” para que ela grite o significado que ele deseja ouvir. Jair está cumprindo pena em um local digno e à altura de um ex-chefe de Estado e muito mais próximo dos centros médicos de ponta de Brasília do que sua própria residência, sendo monitorado 24 horas por dia, sete dias por semana.
Seu quarto com banheiro e comodidades é um sonho para a massa de criminosos doentes que enfrenta quadros de saúde muito mais graves que os dele no dia a dia das penitenciárias do Brasil. Mas que não provocam um pingo de solidariedade em muitos dos críticos da prisão de Bolsonaro. Pelo contrário, comemoram o sofrimento de presidiários e, não raro, defendem o seu extermínio, atualizando a ideia de “solução final”. O que nos leva a crer que o problema nunca foi com a tortura.