
Por Leonardo Sakamoto no Uol
Enquanto milhares marcham nas ruas em protesto contra o assassinato de Renee Nicole Good, cidadã norte-americana de 37 anos morta a tiros pela agência de imigração dos EUA, Trump dobrou a aposta. Após bombardear a Venezuela e ameaçar a Colômbia e a Groenlândia, agora vira o foco para o México.
De forma mais transparente e mais escrachada que seus antecessores, o presidente segue à risca a cartilha dos governantes dos Estados Unidos, indo à guerra para resolver seus constrangimentos internos.
Renee, não estava armada, não era procurada pela Justiça e não colocou em risco a vida de nenhum agente, antes de ser morta em Minneapolis. O local do crime fica a cerca de um quilômetro de onde George Floyd foi asfixiado até a morte por um policial em 2020, gerando protestos contra o racismo nos EUA que prejudicaram a reeleição de Donald Trump, então em seu primeiro mandato.
A justificativa oficial de legítima defesa, de que o veículo teria tentado atropelar um agente, desaba diante das imagens e vídeo que classificam a narrativa como mentirosa. A morte não é ponto fora da curva, mas a consequência óbvia da implementacão de uma política agressiva de caça a migrantes visando à sua deportação.
Para enfrentar a fúria das ruas que ecoou de Minneapolis até Nova York e Washington, Trump anunciou em emissora preferida, a Fox News, que os EUA irão realizar ataques “por terra” contra cartéis no México, acusando organizações criminosas de “controlar” o país vizinho. A fala é vaga em detalhes, mas forte em retórica.
O timing não é coincidência, é cinismo. Desviar o foco da brutalidade policial contra uma mãe, que tinha deixado seu filho na escola momentos antes de ser atingida, com uma promessa de intervenção militar é uma manobra clássica de política autoritária. E mira passar pano na incompetência e na agressividade da política de imigração que bate primeiro e pergunta depois.

Manifestantes estão sendo recebidos com bombas de gás e o governo federal acusa o Estado de Minnesota e a cidade de não estarem reprimindo a população como ele gostaria. Enquanto isso, autoridades locais não estão conseguindo investigar o caso porque tiveram acesso negado às evidências pelo governo federal. Escolas públicas foram fechadas. Relatos de que o ICE atirou em mais pessoas em outros cantos do país pipocam pelas redes, como em Portland, no Oregon.
Protestos contra as ações da agência de imigração em Minneapolis ocorrem há semanas, mas a morte foi o estopim. Trump vem repetindo discursos xenófobos contra a população somali que mora no Estado.
A própria ação contra a Venezuela já ajudava a jogar fumaça sobre escândalos como a liberação censurada dos arquivos sobre o finado financista e abusador sexual Jeffrey Epstein, amigo de Trump. E sobre a própria situação da economia norte-americana, com o aumento de preços que deixa insatisfeita a classe trabalhadores que trocou os democratas por ele na última eleição.
O México e a Colômbia são capazes de lidar internamente com seus problemas, aceitando ajuda financeira ou de inteligência dos EUA, como sempre ocorreu. A Groenlândia, em meio aos acordos da Otan, já permite uma base militar norte-americana em seu território para ajudar a conter China e Rússia. E, sem dúvida, aceitaria acordo de exploração de suas riquezas minerais. Mas a Casa Branca abraçou a necessidade de mostrar ao mundo que este hemisfério pertence aos EUA.
Mas não se trata apenas de petróleo e geopolítica (narcotráfico não é mesmo), mas de sobrevivência política e eleitoral. Quando a violência estatal escapa do controle e a narrativa interna desmorona, Trump recorre ao velho expediente de transformar o mundo em vilões convenientes e a guerra em cortina de fumaça.
É a mesma lógica que autoriza o gatilho fácil contra civis, silencia investigações, criminaliza protestos e tenta unir o país pelo medo. A história mostra que esse truque costuma funcionar no curto prazo, mas cobra seu preço em vidas, direitos e estabilidade.
E, como sempre, quem paga a conta não são os que discursam em horário nobre, mas as Renee e os Georges anônimos, dentro e fora dos Estados Unidos, esmagados entre a brutalidade doméstica e a loucura internacional.