Sakamoto: Trump completa primeiro ano de desmonte da democracia nos EUA

Atualizado em 20 de janeiro de 2026 às 9:43
Donald Trump, presidente dos EUA. Foto: reprodução

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Donald Trump completa hoje seu primeiro ano de mandato deixando para trás algo maior do que um rastro de crises políticas, brigas institucionais e declarações grotescas. O que se vê é um projeto consistente de corrosão da democracia norte-americana — feito com canetadas, ameaças, mentiras à exaustão, normalização do autoritarismo como espetáculo cotidiano, mas, também com tropas e agentes nas ruas que atiram para matar.

Sempre houve muita hipocrisia e disfuncionalidade no que os Estados Unidos chamam de democracia. Mas Trump não está sendo apenas transparente, ele colocou o poder executivo dentro de uma lógica imperial, sem freios e contrapesos.

Desde 20 de janeiro do ano passado, o presidente empoderou uma agência de imigração que agride e mata caçando migrantes e cidadãos norte-americanos; utilizou tropas em território nacional em cidades que não eram simpáticas a ele sob a justificativa de manter a ordem; atacou universidades com pensamento crítico e cancelou vistos de estudantes por motivos ideológicos; desmantelou órgãos governamentais que atendiam a população mais vulnerável e demitiu servidores públicos em troca de uma economia irrisória; bombardeou a Venezuela e sequestrou o seu ditador em busca das reservas de petróleo; impôs tarifas contra o mundo gerando problemas para a inflação da classe trabalhadora; tentou esconder arquivos sobre seu amigo e criminoso sexual Jeffrrey Epstein; retirou os Estados Unidos de órgãos e tratados multilaterais, como a Organização Mundial da Saúde (fundamental para o combate às pandemias) e o Acordo de Paris (esperança para mitigar as mudanças climáticas); restringiu o direito de mulheres e de minorias, como a população LGBTQIA+; rasgou a proteção ambiental sob a justificativa de acelerar a exploração de petróleo e gás, interrompendo o apoio a projetos de energia limpa; ameaça invadir e anexar a Groenlândia e entrar em guerra com a Europa, sua maior aliada. Isso tudo é um aperitivo, não uma lista completa.

Ao contrário do que tentam vender seus defensores, não se trata de improviso, temperamento explosivo ou “jeito Trump de governar”. Há método. Desde o primeiro dia, o presidente seguiu a cartilha de governos autoritários e trabalhou para deslegitimar qualquer instância capaz de limitá-lo: Judiciário, imprensa, universidades, órgãos de controle, servidores públicos. Tudo aquilo que não se submete ao seu projeto pessoal vira “inimigo do povo”, “comunista”, “traidor” ou parte de uma conspiração imaginária.

A democracia não morre apenas quando alguém fecha o Congresso ou anula eleições — coisas que, aliás, ele tentou fazer ao perder em 2020. Ela apodrece quando a mentira vira política de Estado, quando a violência simbólica e física viram rotinas e quando parcelas da população passam a aceitar o inaceitável como algo normal. Trump entende isso. Por isso, governa em permanente estado de conflito, mantendo sua base mobilizada pelo medo, pelo ressentimento e pela sensação de guerra cultural constante. Nubla o debate do que é relevante entregando surrealismo.

“Sem reis”: manifestação contra Trump em Los Angeles. Foto: reprodução

A imprensa livre, pilar básico de qualquer democracia funcional, virou alvo preferencial. Jornalistas são tratados como criminosos, reportagens incômodas são chamadas de “fake news”, dados objetivos passam a ser vistos como opinião e processos bilionários tentam fechar veículos. O objetivo não é convencer todos, mas confundir o suficiente para que a verdade perca valor. Quando nada é confiável, vale a palavra do líder para dar sentido às coisas.

No campo institucional, o estrago é igualmente profundo. Trump testou os limites da legalidade como quem estica um elástico até quase arrebentá-lo. Pressionou tribunais, atacou juízes, interferiu em investigações e deixou claro que entende o Estado como extensão de seus interesses pessoais e eleitorais. Não é coincidência: o autoritarismo moderno não começa com um golpe pontual, mas com a captura lenta das instituições.

Vimos isso no Brasil. A tentativa de golpe de Estado teve nos atos violentos de 8 de janeiro de 2023 apenas a sua cereja do bolo, mas ela começou dois anos antes, com os ataques sistemáticos e organizados contra o sistema eleitoral e à Justiça e teve seu ápice na reunião em que o ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje presidiário, convocou os chefes das Forças Armadas para a intentona em reunião no Palácio do Alvorada.

Há quem diga que “as instituições norte-americanas são fortes” e que “o sistema vai aguentar”. Talvez. Mas democracias não são indestrutíveis por natureza. Elas dependem de normas não escritas, de pactos mínimos de civilidade e da aceitação da diferença. Trump despreza tudo isso. Para ele, perder é fraude, discordar é traição, limitar poder é sabotagem.

Um ano depois, o saldo é claro: menos confiança nas instituições, mais polarização tóxica, mais tolerância ao discurso de ódio e menos respeito às regras do jogo democrático. Trump não desmonta a democracia sozinho. Ele faz algo mais perigoso: ensina parte da sociedade a enxergá-la como obstáculo, não como valor.

A história mostra que regimes autoritários raramente chegam anunciando o fim da liberdade. Eles vêm embalados como solução, como revanche contra elites, como resposta à frustração social. No caso dos Estados Unidos, de revolta de uma classe trabalhadora que acreditou na mentira de que a globalização e o liberalismo fariam leite e mel correr no meio fio das grandes cidades. Trump soube explorar o ressentimento.

O mais irônico é que as ações de Trump não deixaram o seu país mais seguro ou próspero. Pelo contrário: jogam-no em um mar de incertezas, em que os adversários China e Rússia agradecem os tiros no pé, enquanto antigos aliados, agredidos e ameaçados, começam a dar as costas.

Em novembro, o país terá eleições para toda a Câmara e parte do Senado. Trump, hoje com maioria nas duas casas e na Suprema Corte, vai fazer guerra com o mundo inteiro e redesenhar à força uma bacia de distritos eleitorais (gerrymandering) para manter o poder com poucos limites.

Ele não governa apenas os Estados Unidos, governa um laboratório. Testa até onde dá para ir sem que um sistema reaja, até onde a mentira aguenta antes de virar verdade oficial, até que ponto a violência pode ser normalizada como método político. Se houver custo, dobra a aposta; se houver resistência, empurra. É ajudado pela inação de grande parte do partido Democrata, que prefere lutar contra alguém das próprias fileiras que trouxe um caminho novo, como o recém-empossado prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, do que mudar.

E, ao completar um ano de mandato, deixa um alerta que ultrapassa as fronteiras dos Estados Unidos: a democracia não cai de uma vez. Ela vai sendo erodida, dia após dia, até que, quando alguém resolve reagir, já está perigosamente perto do abismo.