Sakamoto: ‘Trump, interfira no Brasil’ virou o programa de governo dos Bolsonaros

Atualizado em 29 de maio de 2026 às 23:27
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Flávio Bolsonaro, Paulo Figueiredo, Eduardo Bolsonaro e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Foto: Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, via UOL.

O patriotismo de vitrine do clã Bolsonaro, que há anos confunde soberania com subserviência, chegou a um novo estágio: sem projeto real para o país, a família transformou o apelo por intervenção estrangeira em seu mais acabado programa de governo.

Tomemos Flávio Bolsonaro. A articulação do senador para que Donald Trump incluísse o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho na lista oficial de organizações terroristas dos Estados Unidos é vendida nas redes sociais como grande vitória da segurança pública. Na prática, é um atestado de incompetência embalado como diplomacia paralela.

Ao entregar a jurisdição política e policial sobre problemas estruturais do Brasil à Casa Branca, que é a consequência da classificação como terroristas, o bolsonarismo abre a porteira para a interferência direta de agências estrangeiras. Não se trata de combater o crime organizado, mas de chamar o os EUA para policiar o nosso quintal. A renúncia da soberania nacional, nesse caso, vem acompanhada de fogos, lives e emojis patrióticos.

Mas o entreguismo não para na segurança pública. Eduardo Bolsonaro, que um dia foi apresentado como possível embaixador nos Estados Unidos com base em sua experiência juvenil fritando hambúrgueres, conseguiu atuar como lobista contra a economia do próprio país.

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Bandeira estadunidense em ato bolsonarista. Foto: Nelson Almeida/AFP

A articulação que desembocou na decisão de Trump de impor um tarifaço de 50% ao Brasil teve como justificativa pressionar o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional a livrar Jair Bolsoanaro da cadeia por ter tentado um golpe de Estado. Não sou eu quem diz isso, mas o próprio Trump. Ou seja, é o sadomasoquismo econômico promovido a estratégia política.

A lógica é cruel, mas transparente: pune-se o Brasil real para alimentar a fantasia ideológica do eleitorado de extrema direita.

Historicamente, grupos que clamam por intervenção externa (militar, política ou econômica) costumam fazê-lo quando não conseguem vencer no debate democrático nem formular soluções para seu próprio povo. “Trump, interfira no Brasil” deixou de ser delírio de grupo de WhatsApp para se tornar estratégia de sobrevivência de um clã.

Em suma, até aqui, os projetos bolsonaristas de segurança pública e de política externa se destacam por “Trump, help me!”

Entre pedir sanções comerciais que atingem trabalhadores brasileiros e terceirizar o combate ao crime organizado, os autoproclamados patriotas provam, dia após dia, que amam qualquer país, EUA, Israel, Argentina, Hungria… Desde que esse país não seja o Brasil.

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