Sakamoto: Trump revive pesadelo ao ver milhares protestando nas ruas de Minneapolis

Atualizado em 24 de janeiro de 2026 às 10:59
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Foto: Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

A história não apenas se repete, ela rima com uma ironia cruel. Quase seis anos após Minneapolis se tornar o epicentro global da luta contra a violência racista, com o assassinato de George Floyd, a cidade volta a pegar fogo — desta vez sob o frio congelante de janeiro de 2026. O gatilho é novamente uma morte pelas mãos do Estado, em mais um episódio envolvendo uma minoria em direitos. Primeiro, negros; agora, migrantes.

O fantasma dos protestos que ajudaram a tirar Donald Trump da Casa Branca em 2020 retorna agora para assombrar seu novo mandato, no ano das eleições legislativas que podem retirar sua maioria no Congresso. Não é a Groenlândia que tira o sono do presidente, mas Minneapolis. Aliás, a polêmica sobre a ilha da Dinamarca tem servido como uma excelente distração para a insatisfação interna.

Milhares de manifestantes fecharam as ruas da cidade e da vizinha St. Paul nesta sexta-feira (23). Não foi apenas uma passeata, mas, como informou o The New York Times, uma greve social, política e econômica, com centenas de negócios fechando as portas em solidariedade contra a repressão.

O nome que ecoa nas ruas agora é o de Renee Good. Cidadã norte-americana, ela foi morta a tiros por um agente do Immigration and Customs Enforcement (ICE) em 7 de janeiro. Os desdobramentos disso foram a gota d’água para uma revolta que já fermentava havia semanas, alimentada por uma operação de imigração agressiva que resultou em milhares de prisões e transformou as cidades em zonas de guerra urbana.

Para Trump, Minneapolis é um território maldito; para o mundo, virou exemplo de resistência. Em 2020, a incapacidade de compreender a dor causada pelo joelho de um policial no pescoço de um homem negro que não conseguia respirar custou-lhe caro nas urnas, sendo um dos fatores de sua derrota. Agora, sua administração dobra a aposta.

O vice-presidente JD Vance, ao visitar a cidade na quinta-feira, preferiu chamar os manifestantes de “agitadores de extrema esquerda” e culpar as autoridades locais, em vez de reconhecer a truculência federal.

A resposta da comunidade é, repito, uma aula de resistência cívica. Não são apenas migrantes nas ruas; o tecido social da cidade se rasgou em protesto. Quando líderes religiosos, estudantes, professores e pequenos empresários se unem sob o mesmo grito, a narrativa de “baderneiros” vendida por Washington soa como fake news. Para os moradores de Minneapolis, a ameaça à segurança pública, neste momento, veste uniforme federal e porta o distintivo do ICE.

A morte de George Floyd ensinou ao mundo que a violência estatal não pode ser normalizada. A morte de Renee Good e a resposta massiva desta sexta-feira mostram que a lição foi aprendida pelos cidadãos, mas esquecida pelos governantes. Se Trump ignorar os gritos que vêm do frio de Minnesota, acreditando que a força bruta do ICE pode silenciar a indignação, pode descobrir, tarde demais, que ressuscitou o mesmo pesadelo político que um dia o derrotou.

O problema para ele é que Minneapolis não esquece. E, quando a cidade se levanta, lembra ao país que essa violência por parte do Estado não é desvio, mas projeto. O pesadelo de George Floyd volta não como memória, mas como advertência: quem governa pelo cassetete pode até impor silêncio por um tempo, mas acaba despertando algo muito mais difícil de calar — a disposição coletiva de dizer “basta”.