Sakamoto: Veríssimo termina sua crônica aos 88 anos e nos deixa órfãos da ironia

Atualizado em 30 de agosto de 2025 às 21:15
Luis Fernando Verissimo, que morreu aos 88 anos neste sábado. Foto: Ricardo Jaeger/Agência O Globo

Por Leonardo Sakamoto, publicado originalmente no Uol

O Brasil acordou neste sábado muito mais pobre com a partida de Luis Fernando Veríssimo. O homem que ensinou várias gerações a rir da própria desgraça e, com o riso, cavar trincheiras, decidiu encerrar sua mais longa e bem-humorada crônica aos 88 anos.

O Analista de Bagé ficou horas tentando encontrar uma razão que explicasse o ocorrido, mas até para ele algumas coisas são inexplicáveis. As Cobras decidiram se aposentar porque tudo havia sido finalmente dito e desenhado. A velhinha de Taubaté, contudo, ainda acredita que ele está por aqui — e é nela que prefiro me fiar.

Foi-se o cronista que transformou o trivial em monumental e o monumental em piada. O sujeito que via muito mais lógica no nonsense do que no discurso sério. Enquanto muitos escreviam tratados para explicar o Brasil, Veríssimo mandava uma crônica sobre um tipo que vira presidente por engano ou via nas relações comuns do dia a dia o caldo que torna o Brasil um brasil e, claro, o brasil um Brasilzão.

E, no fundo, a gente sabia: ele não estava inventando. Só estava apontando o absurdo que a gente insiste em chamar de normal.

Filho do gigante Érico Veríssimo, Luis Fernando carregou o legado do sobrenome não como um fardo, mas como uma herança a ser expandida. E o fez de maneira única, encontrando sua voz não no romance, mas na crônica. Nas mãos dele, esse gênero transformou-se numa arma poderosa de crítica social, de observação do comportamento humano e de resistência política. Ele não precisava de um manifesto de cem páginas (com todo o respeito aos manifestos de 100 páginas, claro), mas bastavam a ele um punhado de linhas para desmontar um argumento hipócrita, um político pomposo ou uma convenção social ridícula.

O escritor Érico Veríssimo, pai de Luis Fernando. Reprodução

Pegava o óbvio que nos escapava, o nonsense da vida brasileira, e o colocava sob uma luz crua, mas sempre com um sorriso, com uma ironia que machucava sem sangrar. Seus personagens, não raro, eram espelhos distorcidos de nós mesmos, mostrando nossas ingenuidades, nossos medos e nossa incrível capacidade de seguir em frente apesar de tudo.

Em tempos de autoritarismo, seu humor era trincheira. Em tempos de obscurantismo, sua lucidez era farol. Ele sabia que rir é, muitas vezes, a primeira forma de não chorar, e a mais corajosa forma de não se curvar.

O cara que nos deu o gosto de abrir um livro (do Para Gostar de Ler às Comédias da Vida Privada) e roubou nossa atenção por décadas saiu de fininho, levando na bagagem algumas das melhores tiradas já criadas. “A morte é uma sacanagem. Sou cada vez mais contra”, disse. E quem há de discordar?

O Brasil ficou órfão de ironia. Mas, como bem sabia Veríssimo, órfãos têm mais assunto para crônica. Então, cá estamos, tentando rir para não chorar ou chorando de rir, porque ele certamente preferiria assim.

Até a próxima Veríssimo, mesmo sabendo que não haverá próxima igual.