
Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL
Preso e preparando sua delação premiada, Daniel Vorcaro tem pesadelos não apenas com a possibilidade de pegar uma cana longa, mas também com a de, ao sair, ter que trabalhar indo de busão, em escala 6×1, comendo marmita fria. Ou seja, perder sua fortuna e se tornar mais um brasileiro.
Mas, caso seja condenado, é isso que precisa acontecer: prisão e perda de cascalho. O patrimônio do dono do banco Master e dos membros de sua família que participavam dos esquemas precisa ser tomado, segundo a letra da lei, claro. Para tentar reduzir o tamanho do prejuízo a investidores e aposentados, mas também como indenização à sociedade.
Vorcaro terá de indicar a possibilidade de recuperação de valores obtidos de forma fraudulenta para conseguir a delação premiada, segundo reportagem da Folha De S.Paulo. Ou seja, vai ter que devolver grana que surrupiou.
O Banco Master criou um programa tipo “Meu Luxo, Sua Dívida” enquanto tungava o país. Vorcaro e empresas ligadas a ele compraram mansões, apartamentos e jatinhos, gastando bilhões, enquanto sua instituição apodrecia em praça pública. A apuração sobre a compra de patrimônio de superluxo foi publicada por Natália Portinari, Amanda Rossi e Pedro Canário no UOL.
Não apenas CDBs de investidores individuais e empresariais desapareciam, mas também grana de servidores públicos vinda de fundos de pensão, como os do Rio de Janeiro e do Amapá.

A grana que o Master mamou ilegalmente pode ser (parcialmente) recomposta vendendo o patrimônio de Vorcaro e das empresas relacionadas a ele e sua família. Digo parcialmente porque uma parte dela evaporou ou foi embora na descarga da privada.
Por exemplo, de acordo com a reportagem do UOL, cerca de R$ 40 milhões foram gastos em um camarote na Sapucaí no Carnaval, R$ 15 milhões em uma festa de aniversário de 15 anos para sua filha e pelo menos R$ 1,1 milhão com diárias da casa em Trancoso — a casa que teria sido palco de impublicáveis bunga-bungas com poderosos.
Como já disse aqui, o banqueiro é ave que canta quando enjaulada e sem dinheiro no bolso. Uma possível delação estaciona o caminhão de explosivos na garagem do Congresso — mas não só lá. Afinal, um crime dessa magnitude não se sustenta sem apoio político e jurídico. Vorcaro e sócios construíram amizades em um espectro ideológico amplo, da direita à esquerda, no Legislativo, no Executivo, no Judiciário e na Faria Lima.
Ou seja, vai ter gente graúda que vai proteger o patrimônio de Vorcaro para que ele não cante muito alto. Mesmo a custo do erário público e do bolso dos trabalhadores.
O país precisa escolher: continua permitindo que a grana de quem trabalhou a vida inteira seja desviada para virar piscina aquecida, hangar e camarote VIP, blindando patrimônio, atrasando liquidação, impedindo a venda de bens, socializando prejuízo e protegendo mansões e jatinhos em detrimento de aposentadorias.
Ou age para que banqueiro deixe de ser uma casta acima da lei.